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Fico um pouco revoltada quando dizem que eu sou fresca e não gosto de comer nada. Prefiro pensar que eu tenho um gosto refinado, tám?

Mas a verdade é que eu sou mesmo muito fresca para comida. Não ligo de pagar caro para comer (se eu tiver dinheiro, né, hehe), não ligo de atravessar a cidade para ir naquele restaurante novo que todo mundo está comentando e também não ligo de comer na barraquinha de cachorro quente da esquina... desde que esses lugares sirvam comida boa. E quando digo "comida boa" quero dizer "comida que eu gosto". E aí você já pode eliminar do cardápio: mel, tudo que é agridoce, todas as bebidas alcoólicas, fígado, feijão, café, tomate, pimentão, chuchu, mamão, ervilhas... na verdade, pode eliminar todas as verduras e frutas, só por precaução. Me mate, mas não me faça comer uma cebola. Não estou brincando.

Para não ser completamente injusta, como alface, cenoura, pepino, batata (AMO batata!), banana, maçã (que seja suculenta e não esfarele) e... é, bem... isso é tudo. Frutas eu gosto mais em suco do que a fruta mesmo. Adoro suco de abacaxi, mas não curto muito comer o abacaxi, e assim por diante.

Mas você não pode falar coisa alguma de mim, quiridinho. Eu sei que você também tem as suas frescuras culinárias. Seja por não curtir o gosto de alguma coisa, a textura, o cheiro ou até porque engorda, você tem suas restrições alimentares também. Não sejamos hipócritas, ok? A única razão para não comer algo e não ser chamado de fresco, é se você tiver alguma doença ou limitação do seu organismo. Não como carne porque bichinhos, não como doces porque engorda, não como frutos do mar porque nojinho... vocês são todos tão frescos quanto eu. E viva a frescura!

Mas, para ser sincera, tenho muitos preconceitos também. Nunca nem experimentei várias coisas só porque "berinjela tem uma aparência nojenta, já comi coisas parecidas antes e elas eram ruins, então, não vou comer berinjela" ou "goiaba tem um cheiro esquisito e tem aquele bicho da goiaba que falam, NOJA" logo, nunca botei um pedaço na boca. Simples. E quando me perguntam, falo com toda a certeza que não gosto de berinjela e goiaba. Mas como posso não gostar de algo que nunca experimentei? Aí resolvi fazer esta série.

Cada post será dedicado a alguma coisa que eu nunca comi antes e tenho preconceito, ou que já comi alguma vez e por algum motivo não gostei, e até mesmo comidas que sempre quis experimentar e nunca tive oportunidade.

E para começar, escolhi algo que (acho) já experimentei em algum momento da vida, não gostei e nunca mais comi: carambola.


Antes de mais nada, vamos falar desse formato lindinho. Pena que você é uma fruta, estrelinha (grumpy) bonitinha.


Enfim, experimentei.

Achei... gostosinha. É meio azeda, mas um azedo suportável. Tem muita água, o que deve ser bom no verão. As sementes são amargas, ew. Mas essa parte a gente geralmente não come, sabe?! Eu mordi porque sou burra. E a parte do meio tem uma textura mais durinha que eu achei ruim (fresca, eu disse).



Fui dar uma pesquisada básica sobre ela no google e o primeiro resultado que apareceu foi "Toxina da carambola pode levar à morte, diz especialista". Certo, muito reconfortante depois de ter comido MEIA CARAMBOLA. Tá. Próximo. "Os 16 Benefícios da Carambola Para Saúde". Hm, melhor. "Contra envelhecimento, melhora sua pele, melhora seu cabelo..." aff. Os três primeiros benefícios da lista são meio ridículos, mas não me dei por vencida e cheguei àqueles que realmente importam: ajuda na digestão, na prevenção de câncer, para os diabéticos, sistema imunológico... então parei, porque a carambola só vai ter esses efeitos se você consumir bastante, só que "Substância tóxica da carambola pode causar insuficiência renal, diz USP - Em grandes quantidades, a 'caramboxina' pode levar pacientes à morte. Cientistas dizem que fruta pode causar problemas neurológicos".

Conclusão: Cinco de dez estrelas (Tum Dum Tss). Por via das dúvidas, meia carambola por ano está de bom tamanho, né?

Hoje em dia virou mais do que piada comentar a respeito da "gourmetização" da comida brasileira, sobre como aquele cachorro quente da carrocinha da esquina da sua casa, que antes custava R$ 3,00 e vinha "completão", hoje custa mais de R$ 9,00 e virou foodtruck, quando muita gente nem sabe o que este termo significa e porque isso hoje em dia é moda. Mas até que ponto é ruim ver este tipo de mudança nos nossos lanches do dia a dia? Será que é tão ruim assim comprar um produto com mais qualidade e facilidade do que durante nossa infância? É claro que falar mal é fácil, é comum no ser humano fazer piada/ridicularizar aquilo que é incomum aos seus costumes e também àquilo que ele não compreende bem.


Gourmet - segundo nossa melhor amiga, a Wikipédia - é "um ideal cultural associado com a arte culinária da boa comida e bebida, de haute cuisine (alta cozinha). Assim, um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando este é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronômicas mais elaboradas." Boa comida e alta qualidade são palavras que podem atrair a qualquer um, então, porquê a "gourmetização" é tão mal vista e virou alvo de piada?

Eu diria que podemos culpar, em parte, o fato de que infelizmente é comum entre os brasileiros menosprezar tudo o que é brasileiro, ou a versão brasileira de algo estrangeiro, neste caso, europeu. Somos acostumados a ouvir e a ler que na Europa a comida de alta qualidade é servida em pequenos restaurantes, ou até mesmo em casas de família, que abrem suas portas para pequenos jantares, e quando aqui no Brasil vimos o "gourmet" sendo apresentado em restaurantes de menor porte do que o DOM ou outro, agimos como se fosse algo errado, simplesmente porque consideramos que nossa gastronomia, nossos pratos típicos, nossos Chefs e cozinheiros não podem trabalhar com algo assim. 

Sou formada em Gastronomia e trabalho na área, e percebo que entre colegas de profissão, a visão sobre esta nova moda é totalmente diferente da visão do público "alvo". O fato de que podemos sim encontrar no nosso próprio bairro pequenos espaços dedicados aos amantes de boa comida, com boa decoração, boa música e bom atendimento, mostra à todos nós que valeu a pena estudar, e que vamos trabalhar em um país que está aceitando aqueles pratos que aprendemos na faculdade, que antes nos faziam pensar "bom, se algum dia eu trabalhar na França, vou usar este conhecimento".

A comida gourmet brasileira tomou a indústria alimentícia para mostrar que nossos pratos são dignos do título, que nossa feijoada merece a atenção que recebe, se for feita com qualidade, e que podemos comer naquele carrinho de cachorro quente da esquina sem medo do dia seguinte, porque conhecemos o que vai dentro dele, e isso não pode ser ruim.

É claro que existem aqueles restaurantes que vão se chamar de "gourmet", quando na verdade só trocaram o queijo prato por parmesão, mas assim como conhecemos atores que não atuam, cantores que não cantam e administradores que não administram - em uma escolha aleatória de exemplos - precisamos saber diferenciar o verdadeiro do que está se aproveitando da moda, mas não devemos parar de acreditar em atores, cantores e administradores por causa dos errados, obviamente, e podemos sim fazer isso com o restaurante gourmet, aonde escolhemos passar o aniversário de namoro ou só o jantar de sexta feira.

De uma confeiteira que passa horas por dia mexendo panelas de brigadeiro gourmet feitos com chocolate belga e pistache, o pedido é de que vejam nossos estabelecimentos com mais carinho e menos preconceito. De uma brasileira, o pedido é de que se pare de achar que só "o estrangeiro" sabe criar e produzir qualquer coisa. E viva ao "raio gourmetizador", que trouxe as melhores coisas que já provei na vida para restaurantes onde posso ir , sem comprar uma passagem de avião.