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Ou em tempos de Game of Thrones, Mad Max. Não sei bem qual a ordem, mas foram os dois assuntos mais falados na minha internet nas últimas semanas e não vi nenhum texto linkando os dois - embora me pareça óbvio o paralelo entre os dois mundos e como devemos compará-los.

Mad Max é um mundo pós-apocalíptico. Game of Thrones é um mundo pré-apocalíptico ("Winter is Coming" não é só uma frase, galera).

Em Mad Max, o mundo já é dor e sofrimento, os recursos naturais já foram esgotados e o pouco que ainda existe é dominado por um puro e único ser maligno. Em Game of Thrones, tudo caminha para isso. A cada temporada a neve aumenta e também a conversa sobre a preparação para o inverno, sobre os alimentos necessários para sobreviver sabe-se lá quantos anos sem novas plantações. Uma das ameaças mais ditas é como o inverno em breve chegará e as pessoas não terão o que comer.

Ambos os mundos são brutais, duros, sem misericórdia alguma. Vemos meninos serem treinados a abdicarem suas vidas em nome de algo maior nos dois, da honra ou de um lugar no céu - sejam eles kami-krazys, patrulheiros da noite ou guardas reais. Meninos que não tinham qualquer chance na vida para serem algo além disso e precisaram se agarrar nessas organizações para ter um motivo de vida.

Temos vilões detestáveis tanto em um quanto em outro. Immortal Joe e Bullet Farmer são tão nojentos e impossíveis de alguém gostar quanto Joffrey Baratheon e Ramsay Bolton. Não existe nenhum tom de cinza nesses personagens, eles apenas estão ali para serem odiados, você sabe que deve odiá-los e isso é muito importante. Mesmo que os ache fantásticos como personagens, reza todos os dias para que eles não existam realmente - tipo um bicho papão.

E os dois são mundos dominados por homens. Mundos nos quais o que acontece é a vontade desses homens, que se sentem no direito de decidir a vida tanto de homens menos favorecidos, quanto de mulheres. E pobre de você se for mulher e tentar se revoltar.

Mas em um dos dois, as mulheres acabam sendo a glória, acabam sendo o arco interessante. E no outro, são reduzidas cada vez mais a um artifício a ser usado para conquistar o público por meio de polêmica. O mais engraçado é que a glorificação da mulher acaba ocorrendo no mundo no qual elas claramente não são consideradas nada além de objetos.


E no mundo no qual a mulher ainda tem algum status, especialmente quando se considera condição social, elas são cada vez mais brutalizadas e reduzidas. Em ambos, elas são violentadas, estupradas, abusadas. Mas em um, isso vira força, poder, história. No outro, vira aquela tia inconveniente que você não gosta, mas tem que aguentar um pouquinho se quiser continuar indo na reunião de família. E em um deles, todos nós sabemos que os estupros e abusos existem, mas ninguém joga isso na nossa cara... enquanto no outro... não só sabemos que a violência sexual existe, como estamos esperando um episódio sem que ela apareça.

Sério, pensa bem. Em Mad Max todo mundo viu as mulheres quebrarem os cintos de castidade de seus corpos, vestidas em apenas pedaços de pano, uma delas grávida. E só de olhar para Immortal Joe, você sabia que aquilo não era consensual. Sabia que elas não eram nada além de escravas sexuais, que tinham obrigação de dar a ele prazer e filhos (homens, por favor). Cada vez que machucavam a personagem vivida por Rosie Huntington-Whiteley, diziam "se ferrou, danificou logo a preferida". Afinal, não era um ferimento... era um dano. Como acontece quando a tela do seu celular quebra. É inconveniente, atrapalha toda aquela beleza programada apenas para você. E para impedir um ataque, ela precisa aceitar a sua condição de objeto naquele mundo e se tornar um escudo para o carro, exibindo ainda sua barriga inchada de uma gravidez prestes a terminar. Mas era um objeto diferente: um objeto de força e poder, e não de abuso. Um objeto de empoderamento. Um escudo. Ninguém poderia atirar ali. Além de danificar a preferida, iriam matar a criança - que poderia ser um homem! E foi. Mesmo que ele não fosse sobreviver, assim como a mãe, fizeram questão de abrir a barriga de uma mulher à beira da morte, aumentando ainda mais a sua dor, apenas para conferir se era um menino - que eles glorificam, tomando ainda mais ódio por aquelas pessoas que estão fugindo de Immortal Joe. E se fosse uma menina? Alguém se importaria? A morte de um herdeiro varão doía mais do que perder qualquer mulher - mesmo que fosse a sua preferida.


Vai ter mulher defendendo mulher e vai ter mulher grávida, decidindo o que fazer com o próprio corpo, sim.

E mais: mesmo com Furiosa - aquela deusa -, que não era usada naquele momento para fins prazerosos e reprodutivos, nós sabemos que ela foi abusada. Sequestrada ainda menina de suas terras férteis e lindas para acabar daquele jeito que vimos? E ainda assim, sendo uma puta de uma mulher linda? O filme não conta, mas meu headcanon é que ela foi sequestrada exatamente para o prazer de Immortal Joe. Em algumas frases, você consegue visualizar que ela foi, sim, estuprada. E então...? O que aconteceu? Ela se rebelou contra aquele sistema e "acabou" com o próprio corpo para deixar de ser usada. Raspou o cabelo, à moda dos kami-krazys. A feminilidade de uma mulher está no cabelo, não? Então vamos acabar com ele. Perdeu um braço e arrumou uma prótese legal pra caralho, mas que não deve deixar ninguém do nível de machismo de Immortal Joe animado durante a noite. Tudo pra conseguir se libertar, mesmo que só um pouco, daquela dominação toda (lembrando que isso é meu headcanon, e não o verdadeiro). Furiosa sofreu tanto quanto qualquer uma das meninas que estava ajudando e ninguém precisou ver ela sendo estuprada na tela para saber disso.


Enquanto no filme não é aceitável que as mulheres estejam sendo violentadas - sendo aliás toda a trama ao redor dessa não-aceitação - em Game of Thrones, é. Eu duvido que qualquer pessoa tenha visto Mad Max e pensado "mas o que essas mulheres esperavam? Só servem pra reproduzir mesmo, burras pra cacete, não conseguem fazer mais nada da vida". Mas na série da HBO... Céus, foi doloroso ouvir isso tantas vezes.

A polêmica de GoT (re)começou quando fomos obrigados a assistir o estupro de Sansa Stark em sua noite de núpcias. Muitos falaram "ah, nem foi tão pesado, não mostrou nada". Meus queridos, vocês estão 1) loucos, 2) desprezando o poder de atuação da maravilhosa Sophie Turner, 3) desprezando o poder de atuação do maravilhoso Alfie Allen, 4) precisando de um psiquiatra urgente, caso realmente achem que não foi nada demais. Seguidos por alguns "mas na época isso nem era considerado estupro, é histórico". Dragões não são históricos e aparecem na trama, ok? Que bosta de desculpa é essa? E, mesmo que o violência faça sim sentido segundo a trama - não era necessário a gente ver nada disso. Especialmente não com uma atriz que acabou de fazer 18 anos (ok, foi ano passado, mas ainda assim, barely legal). A cena do episódio posterior, no qual ela aparece cheia de roxos e marcas nos braços, dizendo como ele a machuca toda noite, já teria sido o suficiente. 

você realmente precisa de mais que isso para entender o que aconteceu?

 
mais do que esses braços roxos e essa atuação maravilhosa?

Já teria sido mais do que suficiente. É impossível não acreditar que uma cena daquelas não existe apenas para objetificar a mulher e colocá-la na posição que os homens acham que elas devem estar. E ainda ouvir alguns reclamando que "nem rolou peitinho". Pra que teria que aparecer um seio? Para vocês baterem uma vendo um estupro, é isso?

Mas piorou. Eu acabei sendo muito lerda para finalizar esse post e um novo episódio apareceu. Dessa vez, escrito pelos produtores, David Benioff e D.B. Weiss, o que me fez tremer de medo logo que vi, pensando na merda que poderia ser. E foi.

Não contentes com uma cena de estupro no episódio anterior, temos outra - ok, quase outra - na qual dois Irmãos da Noite tentam estuprar Gilly, a selvagem, a única mulher na Muralha nesse momento. Primeiro: eu queria que tivessem tentado estuprar a Melisandre enquanto ela estava lá, pra ver vocês queimando, isso sim seria bonito. Segundo: Gilly já foi estuprada. Mil vezes. Todo mundo que prestou atenção sabe disso. Ela foi estuprada pelo pai, provavelmente nasceu de uma mãe que também era sua irmã e fora estuprada por esse mesmo pai. Ela viu todas as suas irmãs serem abusadas de novo e de novo e de novo. Mas precisamos violentá-la mais uma vez, já que todo esse incesto não-consensual não estava na tela. E pior: precisamos tirar toda a legitimidade desse abuso ao fazer ela ser salva por um belo cavaleiro. Ok, não tão belo assim, alguns podem dizer. Sam foi espancado ao tentar salvar sua donzela em perigo e só conseguiu quando Fantasma, o lobo gigante albino que deveria estar com Jon Snow, surgiu para salvar a todos. Isso já teria sido ruim o bastante mas... tem mais. Essa menina, abusada durante toda a sua vida, que acabou de passar por mais um trauma relacionado ao sexo, acaba de algum modo ficando excitada quando Samwell lhe diz que apenas fez o que qualquer homem bom faria. Ela se sente forçada a recompensá-lo. Não é justo deixar caras legais na friendzone, né? Vamos montar em cima deles e mostrar a eles o tanto que somos gratas.

O romance entre Samwell e Gilly estava ali, pronto para ser utilizado a qualquer momento. Não precisávamos de uma tentativa de estupro para tirá-lo da friendzone. Que nem existia (ou existe aqui, no mundo real. Meninos legais, vocês não merecem recompensa nenhuma por serem seres-humanos decentes). A única coisa boa dessa cena inteira foi não terem colocado a atriz nua - mas talvez isso possa ser visto até como algo ruim, já que só não o fizeram por ela não ser convencionalmente bonita, provavelmente. E por estar trepando com um gordo. Não tem sexo para vender em uma cena dessas.

E depois ainda tivemos a cena de nudez gratuita com o núcleo de Dorne. Tyene Sand, nesse universo filha de Oberyn e Ellaria, se irritou um pouco quando Bronn disse que ela não era a mulher mais bonita que ele já tinha visto e resolveu tirar a roupa na frente do rapaz para provar que era sim. Apenas para que no final de toda aquela cena incessante dos seios dela, ela revelasse que Bronn estava envenenado e que iria morrer se ela não desse o antídoto. Oi? Qual a necessidade disso?

Vejam bem, não sou nenhuma puritana. Longe disso. Nem acho que corpos deveriam ser tão banidos quanto são no nosso mundo. Só sou contra sexualizarem ele quando nem ao menos tem motivo. E ainda sexualizarem de modo que ressalte essa disputa entre mulheres, criada pelo patriarcado para que uma mulher sempre queira ser mais bonita que a outra. Nessa cena, era só falar que foda-se se ela não era linda, ela era foda com venenos, assim como seu pai era, e que Bronn estava prestes a morrer. Tão ou mais eficiente para fazer o sangue correr pelas veias do homem e fazer o veneno ir mais rápido do que um par de peitos.

E no final, ela ainda dá o antídoto para ele. Vai entender. Só queriam mesmo era exibir os seios da atriz.

E é isso que Mad Max conseguiu. Qualquer elogio que eu tenha a fazer a esse filme - que, tirando as personagens femininas, é tudo que eu detesto no mundo de blockbusters - se resume a isso: eles conseguiram fazer mulheres que, sim, sofreram e foram vitimizadas, mas não precisaram mostrar isso acontecendo para que nos relacionássemos com elas. Eles tinham algumas das mulheres mais bonitas da atualidade ali - que desfilaram pela Victoria's Secret e já possuem várias fotografias de nu no portfolio - e não precisaram exibir o tempo todo seus corpos. Sim, teve aquela cena inicial ridícula delas na areia com uma mangueira, mas é assim que aquela cena acaba:

Meu corpo não é sua propriedade.

Todo mundo conseguiu enxergar em Mad Max que nenhuma daquelas mulheres estavam onde queriam, nenhuma delas tinha escolhido estar com Immortal Joe e, por isso, elas estavam certas em se revoltarem e fugirem de seu captor. O filme mal tem trama, mas toda que tem é inteira ao redor disso e apenas disso.

O mais triste nisso tudo, para mim, fã doida do mundo Game of Thrones, é que Mad Max vem de uma série de filmes que nunca se importou em representar mulheres de forma correta. Mesmo com uma grande vilã em filmes anteriores - interpretada por Tina Turner -, não faria diferença alguma se aquela personagem fosse mulher ou homem. Já Game of Thrones vem de uma série de livros incríveis, nos quais as mulheres são as mais fortes, as com os pensamentos mais complexos e profundos, as quais não poderiam em momento algum serem homens. Uma série de livros gigantescos sobre a qual o autor nunca entende direito como continuam fazendo para ele perguntas estúpidas, tipo:

"Notei uma coisa muito interessante em seus livros, que você escreve 
mulheres muito bem e bem diferentes. De onde surgiu isso?" 
"Sabe... Eu sempre considerei que mulheres são pessoas". ¯\_(ツ)_/¯

David Benioff e D.B. Weiss, produtores de Game of Thrones, podem não ter entendido esse recado que George R. R. Martin nos deu, mas George Miller entendeu direitinho. Em um filme mais preocupado com corridas, perseguições e explosões, ele conseguiu mostrar mais do que uma série, que deveria ser especialmente inteligente e política, mas que acabou virando só um show de abusos. O material que fez com que As Crônicas de Gelo e Fogo virassem um sucesso está todo lá, nos livros. Os produtores só precisam consultar de novo e aprenderem que mulheres não são objetos, e que o patriarcado é muito mais interessante quando está sendo destruído.

I still believe. Especialmente em Sansa rainha e o resto nadinha. Pelo menos nos livros.
Dez anos atrás, Rachel McAdams parecia ser a nova queridinha de Hollywood. Entre terminar de protagonizar Meninas Malvadas (um dos filmes mais importantes das últimas décadas, aliás - e não, eu não estou brincando.) e Diário de Uma Paixão, além de um namoro com Ryan Gosling que rendeu a ela o casal mais fofo de Hollywood - mesmo que tenha sido antes dele ser bonito, parecia que o céu era o limite para a jovem atriz. Mas algo aconteceu no caminho e a atriz se perdeu entre filmes nos quais está presa a uma trama destinada ao personagem masculino, melodramas românticos e filmes que a encaixam em uma posição privilegiada, mas que não tem sucesso algum. Segundo o colunista da Forbes, Scott Mendelson, o principal crime de Hollywood, que fez McAdams uma das maiores vítimas foi: você não pode ser a próxima grande estrela feminina dos cinemas quando Hollywood não está fazendo esses papéis.

Ser linda e maravilhosa não é a única coisa que importa, ok?

E podemos dizer ainda que McAdams viu isso. Mesmo com seu sucesso no início da carreira, também incluindo Vôo Noturno e Penetras Bons de Bico na lista, ela notou que algo estava errado (em sua carreira) e resolveu dar um tempo das filmagens. Foram dois anos longe dos estúdios, apenas para ela voltar com papéis empoderadores em filmes independentes: Vida de Casado, lado-a-lado a Pierce Brosnan, representando a amante, e Gente de Sorte, que fala sobre a readaptação de soldados após o Iraque. Neste ela não representa a namorada de ninguém e não apenas interpreta uma ex-oficial, mas sim uma com um ferimento grave na perna, a deixando manca. Como esses filmes provavelmente não estavam pagando o aluguel, Rachel foi forçada a voltar para a media mainstream em 2009.

Ainda segundo Mendelson, a partir de 2008 o mercado continuava pior para papéis femininos fortes no cinema, sendo apenas uma mulher necessária em cada filme, e cada vez mais distantes da idade da atriz canadense. McAdams ainda deu a sorte de participar do incrível Intrigas de Estado, em que representa uma blogger jornalista com papel essencial em desvendar o suspense jornalístico. Logo depois, ela ganha um papel em Sherlock Holmes, sendo A Mulher - ou seja, Irene Adler. Um papel incrível mas que obviamente foi danificado por Hollywood, ao pegar uma personagem pela qual Sherlock não demonstra o menor interesse amoroso em qualquer livro - apenas uma grande admiração por sua inteligência, inclusive chegando a comparar-se em alguns casos - e transformá-la na garota de Sherlock Holmes. Mas a pior parte foi que na sequência do filme, ela teve que ser morta para dar lugar à personagem de Noomi Rapace - já que duas mulheres de importância em um filme é um exagero. Rachel representou um papel feminino importante em Uma Manhã Gloriosa, fadado ao fracasso desde o seu início apesar do elenco incrível, e cheios de defeitos por pequenos machismos (como colocar um Christian Louboutin - um sapato de pelo menos 700 dólares - nos pés de uma jornalista desesperada por um emprego, apenas para deixar a mulher com um ar mais requintado, que nem ao menos combinava com a personagem). Paixão, de Brian de Palma, também traz McAdams em um papel interessante no qual ela comanda uma empresa em Berlim e joga com a personagem de Noomi Rapace para seu próprio benefício, além de ter uma sexualidade em alta e apenas para o seu próprio prazer - o que sempre é bem vindo em questões de representação feminina.

Mas também não consigo deixar de ser linda e maravilhosa, né

Além desses, os outros papéis de McAdams foram: o da mulher deixada para trás enquanto seu marido viaja pelo tempo, em Te Amarei Para Sempre (no qual apagam toda a personalidade forte que a personagem tem no livro), a mulher sem memória que o marido precisa reconquistar, em Para Sempre, a garota chata e descartada em Meia-Noite em Paris, um dos interesses amorosos de Ben Affleck em Amor Pleno e a namorada do outro cara que viaja no tempo, em Questão de Tempo. Ah, e Rachel também é a única mulher no último filme que Phillip Seymour Hoffman atuou. E seu futuro não pareceria muito mais promissor: a única mulher em Spotlight, a voz da mãe em Pequeno Príncipe, a ex-namorada de Bradley Cooper que tenta se reconectar com ele enquanto ele se conecta ao mesmo tempo com Emma Stone, em Sob o Mesmo Céu, e a mulher de um boxeador, que morre no primeiro terço do trailer do filme, em Southpaw. E a verdade é que nos últimos anos os papéis destacáveis para mulheres em Hollywood realmente ficaram cada vez mais escassos, e sempre foram e sempre serão dados àquelas mulheres de uma geração anterior, que se beneficiaram de uma época em que existiam papéis fortes para representarem. Filmes que fizeram a carreira de Ashley Judd já não existem mais, e até mesmo Julia Roberts e Sandra Bullock, que tiveram tantos papéis importantes nos anos 90, foram deixadas de lado. Pensem em todos aqueles filmes de Tela Quente, como Erin Brokovich, Uma Linda Mulher, Velocidade Máxima e até mesmo Miss Simpatia, Da Magia à Sedução - onde é que eles foram parar? E até um pouco mais pra frente - Legalmente Loira? Em que local enfiaram as grandes protagonistas femininas? Especialmente as que não estão sozinhas em um universo dominado por homens? Bom, claro, existem grandes protagonistas femininas atualmente - é só vermos a Katniss em Jogos Vorazes, ou a Tris em Divergente... Mas onde foram parar as protagonistas femininas não-adolescentes? Por que apenas adolescentes do sexo feminino são importantes para a atual indústria e não as trintonas e quarentonas? Por que os únicos papéis que estão abertos para elas, atualmente, são o de ser a mulher de algum homem? E como os grandes filmes são centrados em um enorme elenco masculino, tendo espaço apenas para uma mulher - duas, se você tiver muita sorte? 

Da Magia à Sedução: o título já é basicamente uma história 
sobre o papel feminino no cinema nas últimas décadas.

Não é à toa que mulheres resolveram tomar as rédeas da indústria e buscar papéis melhores para elas mesmas. Reese Witherspoon, estrela maravilhosa e empoderada de Legalmente Loira (sério, re-assistam esse filme com os olhos do feminismo), se cansou de perguntar aos produtores o que eles estavam desenvolvendo para mulheres, e, ao perceber que todas as atrizes de 30 anos estavam disputando o mesmo único papel bom existente para mulheres de tal idade, resolveu colocar as mãos na massa: junto com uma produtora australiana, Bruna Papandrea, criaram o Pacific Standard, uma produtora com um objetivo bem claro: "Nós temos o mesmo objetivo em termos de primeiro focar em desenvolver papéis para mulheres. E nós estamos abertas a todos os gêneros de filme nessa companhia. O que nos atrai é personalidade e uma voz divertida e única. Nós só queremos ver mulheres diferentes, dinâmicas, nas telas.". Dois anos após a criação da produtora, dois filmes foram lançados: e os dois foram para o Oscar. Garota Exemplar, com sua magnífica protagonista psicopata e tão inteligente que você se arrepia inteira, e Livre, que apresenta uma Reese Witherspoon sem maquiagem e sem espelhos no set. Mas, sem nenhuma surpresa, nenhum filme com protagonista feminina foi indicado pela Academia como Melhor Filme. 

Valeu por ter entendido direitinho o papel de Legalmente Loira, Reese.

Até essa semana, eu ainda acreditava que o papel de McAdams em True Detectives (que basicamente pode ser considerado uma última chance para atores que não deram certo) seria também somente o da policial feminina frágil a ser resgatada. Qual não foi a minha surpresa a ver esse trailer?


Tudo bem, ela continua sendo a única mulher em um elenco dominado por homens. Mas também é a única pessoa que ganhou cenas de ação do trailer - excluindo uma pequena corrida de Taylor Kitsch. Ela é a pessoa com o colete à prova de balas, a que corre enquanto recarrega a sua arma, a que treina enquanto mostra os seus ombros muito bem definidos - talvez até definidos demais para uma mulher - e enfia a faca em um boneco de um modo que até dói. Além disso, seu cabelo está mais curto, a raiz por fazer, não vemos maquiagem e suas roupas não são sensuais, e sim condizentes com a profissão da personagem. E isso pode não significar nada, pode ser sim que a série acabe a representando como Hollywood fez durante todos esses anos, e que tenha sido apenas a impressão de um trailer. Mas já é algo bastante significativo - ainda mais quando você considera a temporada passada da série, na qual as únicas mulheres eram reservatórios de esperma para os dois detetives. Mas eu espero que não: eu espero que a personagem feminina desse seriado valha por mil e que tenha todas as dimensões que os personagens masculinos da temporada passada tiveram.

E eu espero que não seja apenas True Detective - e nem somente a Pacific Standard - que continuem com isso. Queremos sim mais filmes de mulherzinha. Só não queremos que mulherzinha signifique o que você está acostumado a achar que significa. 

(E ah! Você pode ler o artigo na Forbes sobre a carreira-que-deveria-ter-sido da Rachel aqui, ó!)
Não sei bem quando isso começou, já que sobre as teorias do feminismo na mídia eu já sabia fazia um bom tempo, mas do ano passado para cá tenho analisado cada vez mais o papel que a mulher representa na cultura pop. Na verdade, talvez eu saiba: já estava reparando mais, mas piorou consideravelmente após a Comic Con Experience 2014, que ocorreu na cidade de São Paulo no ano passado. Entre ver um painel com Jason Momoa, que deixou claro como achava importante a DC colocar atores não-brancos em papéis de personagens grandiosos e que são brancos nas HQs (o que é um assunto para outro post), e entre correr para pegar um autógrafo do bonitão, conseguimos encaixar um horário para assistir a um outro painel. Um painel infinitamente menor, que não tinha fila alguma, nem ninguém lutando para tocar no palestrante enquanto ele andava entre o público para o desespero dos seguranças: um painel ministrado por mulheres que trabalham com quadrinhos, falando sobre o seu gênero na cultura pop, tanto sobre a própria experiência profissional em uma área majoritariamente dominada por homens, quanto sobre como estavam representadas nessa área.

Várias coisas muito importantes foram ditas, mas uma me chocou consideravelmente e é a frase que me lembro até hoje (mas não me lembro qual das mulheres incríveis que lá estavam disseram, mil perdões), que ia mais ou menos assim:

"Todo mundo conhece os X-Men. É extremamente difícil encontrar alguém da minha geração, nascidos no final da década de 80 e início de 90, que não os conheça até um pouco além, graças ao desenho animado. Mas mesmo assim, aqui vai uma questão para qualquer um com um conhecimento básico em x-men (básico, repito. Pessoas que leram quadrinhos suas vidas inteiras, não venham reclamar.): reflitam sobre as diferenças psicológicas entre Magneto, Professor Xavier e Wolverine. É bem claro, certo? A personalidade deles é tão diferente que não existe nem como comparar. Agora vamos pensar na psicologia da Tempestade, Jean Grey e Vampira. Complicou um pouco? Pois é."

Posso te dizer facilmente como elas são fisicamente. Sei seus poderes. Sei até o drama da vida delas. Mas não sei dizer muito sobre suas personalidades.

Tudo bem, não sou uma grande conhecedora de quadrinhos. Nunca os li. Mas cultura pop é algo que consumo infinitamente desde pequena. E quando cresci, notei que não fui bem representada ali. Desde então, não existe um filme, seriado, livro ou o que for que eu veja ou leia que não procuro aplicar o Teste de Bechdel, que consiste em termos duas mulheres com nomes no filme, que conversem entre si sobre algo não relacionado a um homem, o Teste de Ellen Willis, que nos estimula a inverter o gênero do personagem e transformá-lo em masculino para ver se ainda é consistente ou se é totalmente estereotipado, e por fim o Teste de Mako Mori, que pede uma personagem feminina com uma narrativa própria, que não sirva apenas de suporte para uma história masculina. Expliquei de maneira bem simplificada os testes, mas quem quiser entender um pouco melhor pode ver esse ótimo guia do Não Aguento Quando. Por mais simples que isso tudo possa parecer, ficar consciente de todos esses testes deixou minha vida muito mais difícil. Admito que muitas vezes foco apenas no teste de Bechdel, e mesmo assim não encontro resultados.

Recentemente, me revoltei com Gotham. O arco de personagens de Batman nos traz personagens femininas incríveis. E em um determinado episódio, o único momento no qual mais de uma personagem feminina conversava com a outra, era simples e unicamente para discutirem que roupa Barbara deveria usar para reconquistar Jim Gordon. Selina Kyle, futura Mulher-Gato, e Ivy, futura Hera Venenosa, estavam ali, dizendo a Barbara que ela não deveria usar um vestido muito curto, para se preservar e dar um ar de mistério - que deveria ser irresistível ao detetive. Eu tenho certeza absoluta que as três teriam muito mais sobre o que falar em um chá da tarde. Quando reclamei disso, me falaram "mas é com a Barbara, ela é a pior personagem do mundo! Uma doida.". Pera lá. Eu sei que tal pessoa sabe um milhão de vezes mais sobre quadrinho do que eu... Aliás, todo o pouco que sei é graças a ela. Mas... Doida? Não vamos comparar loucuras, mas doido o Coringa também é e todo mundo consegue encaixar uma trama ótima pra ele. É um puta de um personagem. Aliás: que vilão grande não é doido? Como esse adjetivo torna personagens femininas (fictícias e reais) tão inferiores?

Mas Gotham ouviu minhas reclamações e calou minha boca em seu season finale. Revi algumas cenas em loop. Fiquei doida no meio do episódio. E um episódio que pode ter sido bonzinho acabou sendo incrível para mim. Graças às suas mulheres. Que foram porcamente desenvolvidas durante toda uma temporada - especialmente a doida da Barbara - mas que abriram um espaço para serem representadas como merecem em temporadas que estão por vir.

Sem mais delongas: vamos analisar o episódio, sob a ótica das personagens femininas. A partir daqui, teremos spoilers.


A primeira cena é um barco surgindo pelo nevoeiro de Gotham, enquanto Cat se aquece, junto a outros adolescentes de rua. Quando o barco se aproxima o bastante, ela vê uma mulher em sua proa. Como deveria ser nos navios dos piratas, ali, entalhada, sem vida e sendo a única alma feminina do barco. Mas aquela mulher era real, viva, com um manto sobre a cabeça e iluminada. Se isso não é uma santidade, eu não sei o que é. E, atrás de sua luz, em sua sombra, estão os homens, remando o barco e levando aquela mulher à terra. "Wow". É a única coisa que Cat diz ao ver Fish Mooney, que se aproxima para lhe dar bom dia, em plena noite. Cat é a única a continuar próxima de Fish, e em três simples frases, o episódio passa do teste de Bechdel logo na primeira cena.

A próxima cena que nos importa nesse momento é de Jim Gordon chegando ao consultório de sua nova namorada, Lee Thompkins, para encontrar ela consultando a sua ex-namorada, Barbara Kean, recentemente atacada pelo Ogro e forçada a escolher a morte de seus pais. Lee diz que fisicamente, Barbara está ótima, mas que precisa se apoio psicológico. O único jeito de fazer Kean concordar é se a própria Lee for sua terapeuta. Nesse momento, você já está gritando desesperadamente para que ela diga não. Chora só de imaginar como elas vão ficar competindo pelo Jim e esquecer qualquer outra coisa. A dor é real ao imaginar Barbara querendo roubar o homem para si, já que seu valor só é definido por ele na série. Mas Lee concorda, e então você fica desesperado com a burrice dela. Até notar que não é burrice: é sororidade. Ela sabe quem Barbara é, sabe o que ela representou para seu namorado. Até mesmo admitiu no episódio anterior ter medo de ajudá-lo a encontrar a Barbara enquanto essa estava sequestrada. Mas ela também sabe - como uma profissional - que uma mulher naquela posição não confia em qualquer pessoa, e que a confiança vai ser um elo essencial na melhora do trauma de Kean. Lee, então, ignora o olhar do detetive que lhe implora para que não converse com Barbara mais do que o necessário, e aceita. A ideia de sua namorada e sua ex conversando deixa Gordon tão desesperado que seu parceiro, Harvey Bullock, tem que falar duas vezes sobre as grandes novidades entre a guerra de gangues de Gotham. A guerra pelo coração de Jim Gordon parece ser mais importante.

Temos então dez minutos da mais tradicional gangue masculina de Gotham, seguida por um tiroteio e e uma lutinha - que ajudou a reestabelecer a masculinidade do detetive - até voltarmos às nossas mulheres. Fish está com um novo visual, no esconderijo super secreto do mafioso Falcone - a quem estava tentando derrubar desde o início da temporada, e quem acreditava que ela estava morta até então. Ops. Pinguim fica boquiaberto, Falcone quase morre ali mesmo para evitar a tentativa de assassinato, Harvey não sabe se o que sente é medo ou tesão e Jim se pergunta até onde pode ser um policial legal.



E cortamos para as outras duas mulheres da série. No apartamento de Barbara, ela conversa com Lee, no ambiente mais acolhedor possível. A lareira não é suficiente para que ela se sinta segura, então a médica faz questão de levantar e ir se sentar ao lado de Kean, a encarando com seus olhos cheios de dor pelo que a outra passou - especialmente quando pensa que poderia ter sido ela ao invés de Barbara.

Woah. Corta pra Fish. Apesar de sua entrada triunfal - não muito bem explicada - e de sua aparência maravilhosa e nada hetero-normativa, a primeira cena revelante nesse cenário é ela conversando com seu ex-criado, seu amigo e confidente, Butch, o qual foi torturado até virar o cachorrinho do Pinguim. Aquela mulher forte e incrível está ali, com as pessoas que mais odeia no mundo, mas vai primeiro conversar com seu grande e torturado amigo. Não é uma cena na qual você imagina homens. Li diversas vezes que uma mulher forte não estava apenas em seu físico, mas muito em seu emocional - em como mulheres são mais capazes, por diversos motivos, de se expressarem emocionalmente melhor, de terem empatia e preocupação com o próximo. Mulheres fortes não são apenas mulheres que imitam o papel dos homens: são aquelas que também sabem abraçar o seu lado 'feminino', se aprofundarem em uma emoção, são aquelas que não possuem vergonha em ter emoção. O lado maternal de Fish também é sua força. A cena do reencontro dela com Butch é tão forte quanto a próxima - na qual ela tem todos os seus inimigos presos, aguardando para entregá-lo ao seu novo amigo (já que o inimigo do meu inimigo é meu amigo).

Cat então aparece: uma mini-Fish. Tinha deixado a jaquetinha e o capuz de lado e agora usava o cabelo igual ao da sua nova mentora, e roupas melhores. Gordon espera que aquela menininha ali - a quem ele conhece e ajudou - seja sua saída. Afinal, é uma menininha.

What? Te soltar? E acabar com a melhor parada que eu já estive só porque a 
gente meio que se conhece, mais ou menos? Sai fora, ômi

Fish volta na cena, com seus olhos de cores diferentes, seu moicano, piercings e um decote fenomenal. O mais legal? Ninguém tá ligando pro decote (Ok, talvez eu esteja.) Mas ela chega e dá seu discurso glorioso, garantindo a Pinguim que a morte dele será lenta e dolorosa - não pelo que ele fez com ela, mas pelo que fez com seu amigo. E depois continua a dar as sentenças de como cada um dos seus prisioneiros morrerá. Cat, então, pergunta como ela os matará.



Voltamos então para Lee e Barbara, que abre seu coração sobre como foi ser refém do Ogro. E enquanto fala, trêmula, quebradiça e com os olhos cheios de lágrimas, conseguimos reconhecer tantas mulheres reais na fala de Barbara.

"Jason viu direto por mim. Ele me conheceu, instantaneamente. Era como se eu estivesse nua, foi assustador... Mas emocionante. E... todos os melhores caras são um pouco assustadores, não?"

É, Barbara. Infelizmente todos os caras são um pouco assustadores, para todas nós. E ainda piores para tantas outras. Como podemos ficar confortáveis, mesmo com nossos namorados-exemplos pró-feministas, enquanto sabemos que existem outras de você por aí, presas nesses relacionamentos? Acreditando que desse modo que deve ser, que aquela é a emoção certa a ser sentida? Quantas vezes não nos forçaram a acreditar nisso? Tudo bem, a parte de te sequestrar, te prender no quartinho vermelho da dor sádico e te levar para matar seus pais parece um pouco menos relacionável.... Mas é mesmo?

Lee estava tão despedaçada quanto eu, conforme Barbara falava. Até Jim Gordon entrar no meio, em uma tentativa desesperada de Barbara tentar competir pelo homem. E confirma que ele tinha sido diferente, apesar de a assustar ainda mais que o psicopata, e que ele nunca havia batido nela... Mas talvez tivesse em Lee? Por paixão? Mas tudo bem. Ele é um dos caras bonzinhos. Vamos comer?

Voltamos então ao galpão com Fish Mooney, e Don Maroni demonstra sua ampla admiração por ela logo ao entrar. "Fish, sua assassina misteriosa, louca, linda!", ele exclama enquanto a puxa para um abraço - ao qual pela cara dela, ela obviamente não consentiu e não gostou. E aqui, Fish engole seu empoderamento pela primeira vez. Mas Maroni nem nota e vai logo até Falcone, cantar vantagem de como ele o derrotou. Pinguim saca tudo e logo trama um novo plano para tentar se safar, mostrando a Fish como ela será inútil ao mafioso assim que Falcone morrer. E então Maroni começa a errar... Diz que não precisa sentir medo de Mooney, já que ela não é uma rival e é uma subalterna. Mas Fish responde que não pode ser uma subalterna, já que subalternos recebem ordens e ela não. E aí Don Maroni confirma, falando que sabe aquilo e que ela deve... relaxar. E ela já está relaxada. Não é por estar se impondo que ela está nervosa, não é por dizer que não vai receber ordens de Don Maroni ou de qualquer outro. Não é por estar brava que se está na TPM, não é por falar mais alto que está louca. Mas é bem fácil estereotipar uma mulher assim. E, para piorar.... Maroni fala "Não acho que você esteja, gatinha". Woah. Não. Nesse momento, já sou eu não-relaxada pulando do sofá e revoltada com esse cara. E começa com aquele discurso todo de "É um elogio, é um termo carinhoso, quer dizer que eu gosto de você..." E tenta mais uma vez tocar nela. Woah. Não. Se olhares matassem, Maroni estaria morto naquela hora, mas só dá um passo para trás e diz como se expressou mal... Ela não era uma subalterna e não era uma gatinha. O que Fish era? Ela só diz que eram parceiros. O macho-alpha concorda, mas deixa bem claro que ele é o parceiro número 1 e ela o número 2. E a faz repetir... Fish já está com os ombros tão tensos que precisa movê-los para tentar relaxá-los. E quando ela repete, ele parabeniza a gatinha mais uma vez. Ops. Mas era a última vez. Até falar mais uma vez, depois de seu discurso de poderoso chefão. Right, babes? Opa, hehe.. brincadeirinha.




Todo mundo fica chocado olhando e depois a guerra recomeça. Mas quem liga pra guerra depois de uma cena dessas? Qual foi a minha reação, com a bocona aberta igual a de todos na série? Alegria, emoção, dei um grito de liberdade, escorreu uma lágrima e ainda rebolei depois.

Toma, mascu

E voltamos para Barbara, que agora serve leite para o chá dela com Lee, quem, aliás, começa a ficar um pouco impaciente para chegarem logo ao assunto. Sim, elas estão conversando, mas não sobre o que realmente aconteceu entre Kean e o Ogro... Okay, Barbara diz que pode contar, mas Lee era uma moça boa demais para ouvir. Lee aceita o desafio, mas o que recebe logo depois é uma pergunta inapropriada sobre Jim já ter lhe dito que a ama ou não. Com toda a graça do mundo, a médica repreende sua paciente, apenas para acabar lhe respondendo depois. E Barbara continua. Lee é linda, inteligente, óbvio que Jim a ama... Essas palavras, saídas da boca de uma ex-namorada, podem ser tão fortes e significativas. É uma luta entre mulheres eternas, que precisam empoderar outras apenas para entenderem como o homem pode trocá-la. Não importa se Lee realmente é linda, inteligente ou o que for importante a Gordon. O que importa nesse momento é que Lee é mais bonita, mais inteligente que Kean, uma adversária. Mas tudo bem. Thompkins respira fundo e pede novamente para que Barbara lhe conte o que aconteceu. A loira finalmente se abre e conta tudo fora das telas, voltando apenas quando já está a falar do dia que o Ogro a levou para matarem seus pais. Com muita dor na voz, ela dá relatos de como lhes falou tudo o que estava entalado na garganta desde que era pequena, como os pais não lhe davam voz ou o afeto que ela esperava, como destruíram a sua auto-estima até que ela desaparecesse. E como não a entendiam... Mesmo enquanto ela os matava. Lee a corrige, dizendo que Jason quem matou os pais Kean, mas Barbara nega e revela como os esfaqueou diversas vezes até cortar suas gargantas, enquanto agarra uma faca em cima da mesa. Lee ainda tenta fugir, mas a doida da Barbara é mais rápida, deixando apenas a alternativa da médica pedir por favor para ir embora.


E agora a Lee sai correndo desesperadamente em direção ao banheiro, óbvio, e se fecha lá para ligar ao seu herói, buscando um resgate. Mas o celular não funciona e Barbara resolve encarar a louca quebrando a porta do banheiro e indo atrás dela com uma faca. A cena logo depois é a de Jim subindo no elevador para a casa de Barbara, o que me desapontou na hora. Não quero que a mocinha seja salva pelo herói. Já estamos fartas disso. Mas graças a deusa, Thompkins não precisa do seu cavaleiro em um cavalo branco e quebra o espelho, agarrando um pedaço dele e se preparando para a batalha. A briga é um pouco idiota, sim. Tapas e puxões de cabelo, empurrões e peças de decoração quebradas. Sério, que mocinha por aí não sabe que dói mais fechar a mão pra bater que dar um tapa? Mas enfim, caem no chão e Lee consegue dominar a inimiga, a segurando no chão e aproveitando para esmagar sua cabeça. O que importa é que, mesmo com tapas e puxões de cabelo, ela não precisou ser salva.

vamos fingir que não é um boneco no lugar da Barbara

E só depois, quando Lee Thompkins já dominou a outra e está a salvo, é que Jim chega. Desculpa, homem, não tem mais trabalho pra você aqui não. Vem me dar um abraço que é só pra isso que você está servindo.

Voltamos, por fim, então para Fish Mooney, que está sendo caçada por Pinguim. Ela que acaba o encontrando e lhe dando uma bela de uma surra com um pedaço de cano. Isso sim é uma mulher que sabe lutar. Fish acaba perdendo vantagem mas aguenta a dor com um sorriso e continua numa luta de igual para igual com Pinguim. Tudo bem, esse Pinguim não é lá o personagem mais forte fisicamente da história, mas uma mulher lutando de igual para igual com qualquer homem que seja já é algo que deixa o coração quentinho. E ela só perde por seu amigo ter passado por uma lavagem cerebral com seu adversário e acabar atirando em sua perna. Mas Butch também atira em Pinguim e corre até sua amiga para se desculpar - o que ela faz. Ela não o culpa por nem um segundo e ainda garante que ficará bem. Pinguim então a joga do prédio, direto ao rio. Se fosse Game of Thrones, eu estaria preocupada, mas é um seriado sobre super-heróis... Mesmo que Jada Pinkett-Smith não vá estar na próxima temporada, todos sabemos que ela voltará.

E era pra ter terminado esse episódio de linda representação feminina. Mas, para compensar todo o resto da temporada, ainda ganhamos um extra. Srta. Kringle, que estava em um relacionamento abusivo com um policial até pouco tempo atrás - até Nygma matá-lo, para ser mais clara - deixou de ser só aquela moça bobinha do departamento policial. Sim, o desaparecimento de seu namorado foi extremamente esquisito, e o bilhete que ele deixou mais ainda. Especialmente quando nota que todas as iniciais das linhas do bilhete formam o nome NYGMA - o mesmo daquele engraçadinho que adora charadas. E ela vai enfrentá-lo quanto a isso. Tudo bem, Nygma obviamente nega saber qualquer coisa quanto a isso, e ela não acredita mas sai mesmo assim, rebolando e com um close desfocado em sua bunda (oi, desnecessário?). Mas foi uma mulher abusada, que notou algo errado e foi confrontar um cara estranho, que aliás a passou a temporada inteira a perseguindo, mesmo que ela tenha demonstrado várias vezes não ter qualquer interesse romântico no sr. Nygma, e que agora pode ter algo relacionado à morte de seu atual namorado. É uma mulher considerada fraca, idiota por continuar com um cara que a machuca, se impondo. E isso é lindo. Um início espetacular não apenas do Charada, como também de mais uma força feminina, completamente diferente das outras e, principalmente: que não imita a força masculina.

Dito tudo isso: sim, o episódio não foi dos mais fortes do mundo para um season finale. Mas foi. Foi por ter aberto portas para toda uma representação de um gênero que tem sido há muito ignorado pelas produções de cultura, que só serviu de apoio e para sexualizar. Somos garotas, temos personalidade e a nossa força. Não precisamos mais ser salvas pelos mocinhos da série - mesmo que nossa única arma seja tapas e puxões de cabelos. Quem sabe na próxima temporada a gente já não chegue em socos?
O que importa é que estamos ali. Estamos sendo representadas como a mafiosa sensacional, que dá um tiro no meio da testa daquele que a desrespeita e inferioriza por ela ser mulher. Estamos representadas como a menina abandonada que encontra uma mãe e percebe que pode ser tão forte quanto ela. Estamos representadas na médica, na profissional, que vê a outra como sua irmã ao invés de enxergá-la como a sua rival, e que tenta ajudá-la até o último instante. Estamos representadas nas mulheres que agarram o que possuem na hora e lutam como podem. Impressionantemente, estamos representadas na mulher doida que viveu por um homem e que enxerga outras mulheres como rivais, na mulher doida que não é levada a sério por ter tomado algumas decisões ruins na vida e automaticamente ser considerada emocionalmente incapaz, invalidando assim tudo o que ela sente e vive. E também na mulher que tanto sofreu, mas que ainda não precisa ser salva se não pediu, e especialmente não precisa ser salva por um outro homem que não percebe ser tão abusivo quanto o anterior. O que importa é que estão escrevendo sobre mulheres nem um pouco perfeitas, doidas, jovens, adultas, loiras, negras, de cabelo comprido e de moicano, ricas e pobres, politicamente corretas ou não. O que importa é que: mulheres.

Uma vez, no tumblr, perguntaram a uma autora de fanfics sobre como ela escrevia personagens femininas tão fortes. A resposta dela?

"Screw writing 'strong' women. Write interesting women. Write well-rounded women. Write complicated women. Write a woman who kicks ass, write a woman who cowers in a corner. Write a woman who’s desperate for a husband. Write a woman who doesn’t need a man. Write women who cry, women who rant, women who are shy, women who don’t take no shit, women who need validation and women who don’t care what anybody thinks. THEY ARE ALL OKAY, and all those things could exist in THE SAME WOMAN." (Foda-se escrever mulheres 'fortes'. Escreva mulheres interessantes, Escreva mulheres bem centradas. Escreva mulheres complicadas. Escreva uma mulher que chuta bunda, escreva uma mulher que se esconde no canto. Escreva uma mulher que está desesperada por um marido. Escreva uma mulher que não precisa de um homem. Escreva mulheres que chorem, mulheres que não parem de falar, mulheres que são tímidas, mulheres que não engolem sapos, mulheres que precisam de validação e mulheres que não se importam com o que qualquer um diga. TODAS ESTÃO BOM, e todas essas coisas podem existir NA MESMA MULHER.)

E você pode ler essa resposta incrível completa aqui.

Representação feminina importa tanto que a Camren Bicondova, atriz da Selina Kyle, com seus 15 anos diz sobre o que ocorre com a sua personagem nesse episódio:

"Selina joins forces with Fish Mooney. The fact that Selina gets to be part of a team that's led by a woman who is so strong and fierce - it empowers her ans she realizes, 'I can BE powerful'" ("Selina une suas forças com Fish Mooney. O fato de Selina se tornar parte de um time liderado por uma mulher tão forte e poderosa - isso a empodera e ela percebe, 'eu posso SER poderosa'")

E é isso. Eu só quero mais meninas de 15 anos notando que elas também podem ser poderosas. Não todas de forma como a Fish é empoderada, mas como a Lee é. Como a Srta. Kringle é. Até mesmo como a Barbara é. Eu só quero mais e mais mulheres com a noção de que podem ser empoderadas - e de tomarem esse poder todo para ajudar a repassar para outras mulheres, meninas, moças. Que Gotham continue assim e que várias outras meninas sejam empoderadas, que elas percebam que personagens femininos só não são bons quando o homem por trás delas é ainda pior e não enxerga o poder que existe dentro de uma única mulher.

 
Feminist slap pra quem acha que mulheres - e personagens femininas - não podem ser interessantes.