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La lengua española
A língua espanhola

Depois da língua portuguesa, avançamos para leste e encontramos a muito falada língua espanhola, cujo nome na realidade é castelhano. É uma língua que deriva do latim e que ao longo dos anos foi influenciada por outras culturas, o que levou à formação de outros dialectos falados em Espanha: o catalão, o asturiano, o aragonês, o galego e o basco. É a segunda língua mais falada no mundo, contando com cerca de 250 milhões de falantes, sendo também a segunda língua mais estudada e a segunda mais usada em termos de comunicação internacional. A língua é falada em Espanha, em vários países da América Central e do Sul, nas Filipinas e na Guiné Equatorial.

Pessoalmente, esta é uma das línguas que mais gosto de ouvir e falar. Primeiro, porque moro quase em Espanha, então a forma como falo é bastante influenciada pela língua espanhola (acreditem, dificilmente me vão ouvir dizer um "v" no meu vocabulário - talvez consigam oubir um "b"). Depois, porque acho que é uma língua com muia personalidade, já que consegue ser "agressiva" sem perceber a beleza das línguas derivadas do latim.

La musica en español
A música em espanhol

Depois de ver a importância que a língua espanhola tem no mundo, é mais que óbvio que é muito fácil a língua vingar no mercado musical. Quem é que nunca ouviu música em espanhol na rádio? São inúmeros os artistas internacionais que continuam a fazer do espanhol a sua língua, mesmo que gravem versões em inglês. Na realidade, devemos agradecer a essas Shakiras, esses Enrique Iglésias, esses Ricky Martins e outros tais que ainda se importam com a língua que aprenderam em criança e não a perderam só porque chegaram à fama.


Há duas coisas que sempre vou associar a Espanha: as touradas e o flamenco. A primeira, parecendo que não, já influenciou muita música (o paso doble ficou famoso pela sua utilização em touradas, por exemplo); a segunda é a música e o ritmo que é Espanha de cima abaixo. O flamenco é já reconhecido como património imaterial da humanidade e evoluiu desde apenas canto até ao acompanhamento com guitarra, as palmas e o sapateado. O flamenco é dividido em vários categorias, ou palos, consoante as estruturas rítmicas.

A Bulería é um desses palos, e uma das mais conhecidas. Foi por isso que escolhi esta música de David Bisbal, "Bulería", que não podia representar melhor este ritmo. Para além de ser flamenco da cabeça aos pés, é também a representação perfeita de como os espanhóis parecem metralhadoras a cuspir palavras. Eu, que comecei a aprender espanhol quando tinha uns 12 anos, ainda demorei para perceber o que é que o homem dizia em algumas partes. Mas é isto, a essência espanhola está aqui.


Dispensando apresentações, o Ricky Martin é, como todos nós sabemos, um dos artistas de um país hispânico mais bem sucedido internacionalmente. As músicas dele tocam na rádio a toda a hora e vocês já devem ter ouvido esta uma centena de vezes na vossa vida. Bem, se não ouviram, eu já ouvi, já que isto estava muito na moda em 2008. Qual o interesse então de pôr aqui uma música de um artista que é mais conhecido que o papa? Porque na minha óptica, a língua espanhola é uma língua extremamente sexual (nem vou dizer sensual, porque acho que ultrapassa isso) e toda esta música cheira a sexo. Mesmo que ignoremos a letra, o próprio instrumental leva-nos para esses caminhos mais obscenos. Claro que depois ele canta "Porque esta noche tu serás mía" e eu morro. Curioso que mesmo na versão em inglês desta música, ele não traduziu, por exemplo, esta parte. É óbvio que o homem sabe que fica muito mais desejável quando canta em espanhol (ou então a métrica não dava para meter aquilo em inglês, mas vou ignorar só para a minha teoria estar certa).


Mas calma, que se tentarmos com jeito, facilmente conseguimos meter a língua espanhola numa balada sem magoar ninguém! Eles são agressivos mas também podem ser românticos, e para provar isso temos aqui a Pastora Soler com o seu "Quédate Conmigo". Para mim é muito fácil entender a letra da música, mas acredito que não é preciso ser-se poliglota para entender onde esta música quer chegar. Quer dizer, com um instrumental destes e com esta expressividade vocal, rapidamente somos remetidos para uma história de amor triste. Este tipo de música sempre nos vai fazer lembrar algo do género, nem que seja cantada em chinês. E a Pastora é uma excelente cantora, com uma carreira de já muitos anos em Espanha e bastante reconhecimento a nível europeu. Esta música é linda sobretudo pelo instrumental e pela voz e acho que é mesmo daqueles casos em que o que menos importa é em que língua é cantada.

Por hoje terminamos a nossa pequena viagem pela música do mundo e na próxima semana iremos um pouco mais para leste, chegando a França e à considerada língua do romance!

A língua portuguesa

A língua portuguesa é uma das línguas derivadas do latim, que teve origem no norte de Portugal, com influências do galego (criou-se mais ou menos onde eu moro - sulistas, não reclamem com o meu sotaque, eu é que falo direito!). Só Portugal e Brasil é que têm a língua portuguesa como oficial, mas ela é falada um pouco por todos os continentes, sendo a quinta mais falada em todo o mundo.

A música em português

Viajar nas músicas cantadas em português implica viajar por muitos sotaques e por muitos tipos de músicas que jamais poderiam ser cantados noutra língua que não o português. Por ser a língua que todos nós falamos, vou focar-me mais nos estilos musicais que no idioma, porque afinal português entendemos e conhecemos todos muito bem. Vamos então passear entre Portugal, Brasil e Angola.


Quando se fala em música de Portugal, há algo que sempre será maior que tudo em termos de reconhecimento mundial: o fado. Em mais nenhum país se canta o fado e em mais nenhuma língua se pode ouvi-lo, porque simplesmente não faz sentido. Sendo considerado património imaterial da humanidade, é o tipo de musica que facilmente se entende sem tradução. Nem de propósito, o fado é o género de música que tem muitas vezes na sua letra a palavra "saudade", que não tem tradução para nenhum outro idioma. Nem todos nasceram para cantar fado, mas os que nasceram fazem-se entender com o poder da voz e é por isso que o fado é ouvido um pouco por todo o mundo.

Não se me considero apreciadora do fado mais tradicional, mas a verdade é que este género se pode apresentar de várias maneiras. Por isso escolhi esta música, "Senhora do Mar", por ser um fado com uma composição mais cheia, que não se limita apenas à guitarra portuguesa. Escolhi também por causa da letra, que é um hino àqueles que perderam a vida no mar e, especialmente, uma recordação do tempo dos descobridores portugueses. Afinal, foram eles que levaram a língua portuguesa para o mundo.


Atravessando o oceano Atlântico, deixamos a melancolia do fado para encontrar um ritmo muito mais animado e também em português: a música popular brasileira (MPB). É um estilo musical que teve raízes na bossa nova e que tem instrumentos, como o violão, que o tornam facilmente identificável. Sendo um estilo tão ligado ao Brasil, custa-me sequer imaginar músicas dentro deste género cantadas noutra língua. Acho que qualquer pessoa, seja de que país for, consegue sentir a energia do instrumental. A menos que a pessoa tenha deixado a sensibilidade musical em casa, claro.

Pelo menos em Portugal existem imensos cantores do género que fazem sucesso, mas Chico Buarque é um nome do qual ouvi falar a vida toda. Acredito que ele tenha sido um dos nomes que tornou a música brasileira internacional e, mesmo não seguindo o trabalho dele, arrisco-me a dizer que será um dos melhores do género.


De África chega-nos o kizomba, um ritmo nascido em Angola e que a nível de internacionalização ainda tem muito que percorrer. Claramente, a percussão é o elemento-chave deste ritmo, com tambores e outros instrumentos típicos de sons semelhantes. Em Portugal o kizomba ficou famoso há alguns anos e desde então tem sido imitado por vários cantores. Mas claro, é impossível imitar a batida deste instrumental e só quem cresceu com ela é que consegue compor algo que consiga transpor o calor de África numa música. E ouvir kizomba sem o sotaque angolano? Acreditem, faz toda a diferença. 

O Anselmo Ralph é o maior nome da música africana em Portugal. Não sou fã de kizomba e este é o único cantor dentro do género que consigo ouvir, especialmente porque é angolano e como tal cresceu a ouvir kizomba, portanto sabe muito bem o que faz. Para além disso, apesar de ele morar em Portugal, ele continua a apostar nos sons da sua terra e portanto adequa-se perfeitamente ao que tenho vindo a falar.


Podia pôr esta música porque afinal em todos os países que se fala português se faz música fora dos seus géneros típicos. Mas escolhi esta música porque ela podia ser o hino destes meus textos e portanto só vos deixo alguns excertos da letra:

"Dizem que cantam hip-hop, mas não dizem nada
vêm com poesia mas é só fachada,
O português não tá cansado eles vêm com o inglês
Eu pratico praticando a nossa língua outra vez
Seja hip-hop, seja rock são poetas de karaoke"

"Isto é para todos, não é só para Mc's
Isto é para Tugas que nunca escrevem na língua raiz
Querem ser internacionais mas tão cá no país
E nunca são originais, são Nova Iorque ou Paris
Sempre fui Dom Diniz, vocês são de onde der mais jeito
Onde houver mais fama e proveito
E se houver mais grana é aceite"

"Todos vós do rock, pop, hip-hop é escrito em inglês
Com a desculpa que foi a música que ouviram ao crescer
Nunca precisei de ouvir hip-hop tuga para o fazer
Isso é o que dá mais prazer, o meu idioma exploração
Vocês tentam outra língua para tentar exportação
Querem ser os "moonspell", querem novos horizontes
Mas aqui o Samuel é Madredeus é Dulce Pontes
Porque há uma identidade, vocês são todos idênticos
São autênticos mendigos vendidos por cêntimos"

"Porque eu escrevo como falo, como sonho e como penso"

Acho que já deu para entender...
Eu tenho, tatuado no meu braço, um trecho de Quem Vem Pra Beira do Mar, de Dorival Caymmi. Pouca gente reconhece a música quando vê: as pessoas leem e dizem que a frase é bonita, mas ficam surpresas quando eu explico que é uma música, e quem é o autor. "Mas isso não é MPB?", perguntam. Eu digo que sim, e elas parecem confusas: "Ah. Achei que você gostasse de rock."


Pára tudo. Você consegue notar quanta coisa sem sentido tem nessa simples frase? Vejamos: sim, eu gosto de rock. Adoro, aliás. Mas também gosto de MPB. Gosto de jazz, gosto de pop - me jogo ouvindo Taylor Swift, e não tenho a menor vergonha de admitir. Por que eu gostar de uma coisa me impede de gostar das outras? Aliás, por que mesmo foi que você achou que eu gostava de rock? "Ah, você tem o cabelo vermelho, tem piercing, tatuagem, usa roupa preta." Então é obrigatório - ouvir rock e usar roupa preta, ou o contrário? Eu tenho um amigo que só se veste de preto, porque acha a cor mais bonita e elegante do mundo, mas é super fã da Beyoncé. Eu sei - estereótipos nasceram de algum lugar, e aquela coisa toda. Muitas vezes, a coisa bate mesmo. Mas às vezes isso simplesmente não acontece - e a gente precisa começar a se acostumar com esse fato. Ainda mais em um mundo e em uma época em que todo mundo está exposto a todo tipo de influência, livre para ser e gostar de coisas originalmente tão distantes quando aparentemente dissonantes.

Sempre que alguém estranha a minha paixão por Caymmi e eu explico que, sim, eu gosto de rock, mas que isso não me impede de gostar de outras coisas, eu cito que, se a pessoa for fuçar no meu celular, ela vai encontrar muita coisa "nada a ver" uma com a outra por ali - tem um monte de salsa, por exemplo. E por quê? Porque eu danço salsa há oito anos. E sou a-pai-xo-na-da. <3 "Como assim? Eu achei que você fosse metaleira!" Uhn... E? Aliás, sabe por que a frase tatuada no meu braço fala de mar? Porque eu adoro praia. "No waaay! Branquinha desse jeito? Nerd desse jeito? Achei que você odiasse sol e calor!" Amigo, eu sou branca, não sou uma vampira. Eu posso ser "nerd", se quiserem me classificar desse jeito - mas já passamos da época em que "nerd" era obrigatoriamente aquele cara que não saía nunca do quarto e da frente do computador, né?


Do mesmo jeito, há muito tempo atrás, eu era adepta convicta do sedentarismo - achava que quem preferia gastar seu tempo correndo atrás de uma bola era obviamente menos inteligente que eu, que aproveitava minhas horas livres lendo livro atrás de livro. Mas um dia eu resolvi me aventurar por um ambiente totalmente inóspito para mim - e considerado um tédio até mesmo por muitos dos adeptos da atividade física: a academia. E, bom... Eu viciei. De verdade - eu não consigo passar um dia sem ir lá e fazer meu treino (okay, eu passo os domingos, mas só porque a academia está fechada). Eu me sinto super bem; seja por algum efeito psicológico ou simplesmente porque meu corpo libera hormônios que me deixam mais feliz e relaxada. Eu vejo resultados, e isso me deixa ainda mais motivada. Um dia desses eu fui experimentar uma aula de aerial dance, e todo mundo me aterrorizou dizendo o quanto eu ia morrer de dores musculares no dia seguinte - mas eu não senti nada. E passei o dia agradecendo por estar treinando regularmente há três anos. <3 Eu não defendo que todo mundo deva ir se matricular em uma academia, porque sou totalmente contra fazer qualquer coisa odiando essa qualquer coisa (embora recomende que todo mundo dê uma chance para algum tipo de atividade física ;)); mas, para mim, funciona maravilhosamente. E eu descobri que, ao contrário do que eu pensava, 'o povo da academia' não é um bando de acéfalos que só pensa em ficar o maior possível, se enche de bomba para ter mais músculos e nunca leu um livro na vida - tem mais gente lá parecida comigo do que radicalmente diferente de mim. Fiz amigos na academia. Tenho conversas interessantíssimas entre um exercício e outro. (esses dias eu vi um cara que estava lendo Fundação, do Asimov, entre uma série e outra de exercícios. JURO!) Aprendi a me alimentar melhor, a não forçar demais meu corpo, a me cuidar direitinho para não acabar lesionada ou morrendo de dores. E senti como é ser vista como parte do 'povo da academia' por gente que não frequenta - amigos meus, muitos deles, que torceram o nariz para o meu então novo estilo de vida. Ironias interessantes da vida.



Dá para chamar isso de pré-conceito, no sentido mais puro da palavra - embora, é claro, seja um pré-conceito muito mais 'inofensivo' do que aqueles sobre os quais estamos nos acostumando a refletir e debater como sociedade. Assim como a 'nerd' não necessariamente odeia praia, a 'metaleira' também pode gostar de MPB e o 'povo da academia' também sabe exercitar o cérebro, o cara estudante de história que usa dreads não é um 'vagabundo maconheiro', a menina que posa nua ou faz aula de pole e strip dance não faz porque é uma 'safada', aquele menino louco por HQs e videogames não é um 'virjão' imaturo. Mesmo se não conseguirmos nos colocar no lugar do outro para compreender for real o que ele sente ou por que ele faz o que faz, é legal parar de tentar colocar as pessoas em caixinhas rotuladas. O mundo fica muito mais interessante quando damos a nós mesmos a chance de ser múltiplos - e conhecer pessoas que também sejam assim. <3 x)

Um ano inteiro à espera deste dia, UM MALDITO DE UM ANO INTEIRO!, e imaginem só, já passou. E o pior é que nem sei se estou feliz, se estou chateada, se estou a desejar que todos os que não votaram na Itália morram. Não sei, é um sentimento aí pelo meio. 





Admito que ainda estou a recuperar das emoções que foram as minhas últimas horas. Eu, literalmente, esperneei no sofá e chamei nomes às pessoas e essas coisas todas. Não ganhou quem eu queria, fiquei um bocado amuada. Na realidade, fiquei muito amuada e isto não vai passar assim tão cedo. No entanto, assisti ontem a uma das finais eurovisivas mais renhidas, mais emocionantes e mais fortes de sempre. A qualidade musical foi soberba e as apresentações conseguiram ser ainda melhor que isso! Claro que Portugal não esteve ao nível de toda esta qualidade e acrescentou mais um recorde ao seu cardápio de humilhações: é actualmente o país que não vai há mais anos à final. Juntando ao facto de que é o país que participa há mais anos sem nunca ter vencido, já temos condições suficientes para enfiar um saco na cabeça para não passar vergonha.

Muito aquém da qualidade musical, ficou a realização do programa. Planos mal cortados, falhas de ligação (nas votações finais foi uma festa a deitar ligações com os países abaixo e a deixar as pessoas a falar sozinhas), problemas de som, problemas de tempo. A organização foi tão idiota que construiu uma passagem para o palco com escadas, sabendo que havia uma participante em cadeira de rodas. Uma ode à estupidez!

Måns Zelmerlöw foi o grande vencedor da noite, dando à Suécia a sexta vitória e a segunda desde 2012! Tenho muitos mixed feelings acerca desta música. Não gosto, não desgosto, certamente não é a minha vencedora. Fun fact: quando a Rússia estava em primeiro eu já chamava nomes a toda a gente que não votava na Suécia, PORQUE A RÚSSIA JAMAIS PODERÁ VENCER, OK? JAMAIS! Ok, talvez um dia possam, mas não para já. Voltando ao nosso querido sueco, ele levou para casa uma vitória merecida. Apesar de os grafismos já não serem novidade para mim, há que admitir que estão muito, muito bons, e os olhos também comem. A música não é nada de muito especial, mas também serve para o que os ouvidos comem. O conjunto funcionou na perfeição e foi o suficiente para a Suécia levar mais um prémio para casa. Podia não ser a melhor música, mas em palco foi irrepreensível. Parabéns Suécia!


Não vou perder o meu tempo a falar da música da Rússia. Polina canta muito bem, é muito bonita, chora que parece uma torneira, a música é uma baladona hipócrita sobre paz e amor no mundo (muitos risos para a Rússia) mas nem sei o que eles estavam ali a fazer. Não eram eles que se recusavam a participar este ano? Portanto, para a música da Rússia, eu tenho isto a dizer:

(absolutamente nada contra a Polina, continua a achar que é uma óptima cantora!)

E agora sim, chegamos aos verdadeiros vencedores! (Elizabete vai só respirar um bocadinho, para ver se não desfalece).


PORQUE É QUE ISTO NÃO GANHOU?


Vozes excelentes, orquestração excelente, letra horrível que fica excelente porque é cantada em italiano, que mais era preciso? Não entendo, a Europa anda com tanta cera nos ouvidos que já dava para fazer velas. Enfim, foi o terceiro lugar que mais ficou atravessado na minha garganta na história do concurso. Completamente injusto, na minha opinião, ainda para mais depois de saber que eles ganharam o televoto e não ganharam graças aos júris. Lembram-se da parte da cera? Eu nem vou tentar descrever a grandiosidade deste tema, que pisa e esmaga as "Heroes" da vida. O melhor é ouvirem e tirarem as vossas próprias conclusões. 

Agora vamos dar um pouco de tempo de antena às crianças, que chegaram, viram e venceram. E da forma mais justa!


Eu não disse mal desta música. Não, eu arrasei-a por completo, com os piores adjectivos que vocês podem imaginar. Mas o que ia eu esperar de uma criança de 19 anos que eu nem consigo distinguir se é um homem ou uma mulher sem lhe olhar para a cara? Pois, eu arrasei-a, o Loïc veio e espancou-me. Levou para casa o 4º lugar depois de nos deixar uma das melhores prestações. Que voz! Que profissionalismo em cima daquele palco! Para além de que a música é algo que não me lembro de alguma vez ter visto no ESC, mas pelos vistos a inovação deu frutos. Este é, sem dúvida, o dark horse deste ano. Well done Loïc, well done Bélgica! 


Vou só mostrar-vos o que aconteceu no meu Twitter:

(Tenho quase a certeza que isto dá para ser presa por pedofilia)

Acho que já deu para perceber que eu amo toda esta performance de morte. A sério! Podiam tocar esta música no meu funeral e eu ia adorar! Colocar nas costas de um jovem de 16 anos a árdua tarefa de levar o mais longe possível um país que não qualificava para a final desde 2010 é um verdadeiro risco. Mas quando ele volta para casa com um 9º lugar, é só espantoso! E tudo o que aconteceu em palco foi excelente! A voz de Nadav pode não estar perfeita, mas quem queria saber, quando a única coisa que se queria fazer era dançar? Este concurso precisa de mais músicas assim: étnicas e modernas ao mesmo tempo e que nos façam querer dançar! A minha grande favorita, não para vencer, mas para ouvir, ouvir e ouvir. E ainda ter vontade para ouvir mais uma vez. 


Uma verdadeira menção honrosa para a Austrália, que na sua primeira participação arrecadou o 5º lugar! Se for para continuarem assim, voltem as vezes que quiserem, australianos. Serão bem-vindos! Guy é tão carismático e em palco transmite tão boa vibração que podia ficar o dia inteiro a vê-lo e a ouvi-lo. Europa, põe os olhos!


Eu vou fingir que o Elnur não cantou isto mal e porcamente. Também vou fingir que não tive vontade de ir lá ao palco e bater com os dentes dele contra o chão por ter arruinado a música. PORRA, FOSTE PERFEITO NA SEMIFINAL E AQUI FAZES ISTO? Enfim, vou continuar a amar a música, mesmo que o excelente cantor que a interpreta tenha sido o cúmulo da incompetência. A orquestração desta música continua a ser impressionante e a letra continua a ser brilhante. E o Elnur continua a ser a melhor voz masculina desta edição, mesmo que aqui lhe tenha corrido mal. Para além disso o Azerbaijão tinha o melhor background e a coreografia era absolutamente magnífica. Juntando isso às alusões ao "lobo" que fala o título da música, e esta música tem tanto de requinte como de magnificência. Podia ter sido uma top5 se não tivessemos um Elnur desinspirado, assim foi 12º lugar.


E fecho este momento reflectivo sobre as músicas do festival com a guerreira filha do demónio. Eu já sabia que ela conseguia ser medonha, mas ela superou as expectativas! Não é só a aparência, só o olhar dela faz com que eu me sinta do tamanho de uma formiga! E aquela voz? Parece que me esmaga com palavras. É impressionante esta presença em palco, é ainda mais impressionante perceber como ela não precisava de luzes, fumo ou roupas para se fazer ver. Nina é claramente uma cantora a sério e a quem se deve dar muito valor. Pena o 11º lugar.

As minhas previsões acabaram por bater mais ou menos certas. A Suécia ganhou e mais dois dos países que considerava favoritos à vitória conseguiram um lugar no top5. Espanha e Albânia floparam, tendo conseguido o 21º e o 17º lugares, respectivamente. Áustria conseguiu o último lugar e uns belos null points, o que faz desta canção a pior classificada de um país que joga em casa. A Alemanha foi no embalo dos null points, fazendo com que eu desejasse que a Lena ou o Roman Lob voltassem. Pelo menos esses dois sabem jogar este jogo. Este ano ficou também marcado pelo abanão no bloco do Norte, do qual fazem parte cinco países poderosos no concurso e dos quais só dois estiveram presentes na final: Suécia e Noruega. Mesmo em desvantagem numérica eles fizeram-se ouvir e a Suécia levou a melhor.

Espreitem a tabela classificativa final:


Por este ano terminou, para o ano há mais. A boa notícia? Já não falta um ano! Dia 10 de Maio de 2016 temos encontro marcado na Suécia. Até lá, é ouvir as preciosidades que este ano nos deixou. E rever incessantemente o criador da música israelita a estender-se ao comprido em cima do palco.

(Vejam bem ali do lado esquerdo! - estou-me a rir de novo com isto)

ATÉ PARA O ANO ESTOCOLMO!
(ou alguma cidade parecida)



Existem cerca de 7000 idiomas diferentes no mundo, incluindo dialectos regionais que não são, a nível internacional, reconhecidos como língua (como é o caso do mirandês, em Portugal). Algumas delas nem sabemos de que país são, de tão estranhas que conseguem ser. E a maior parte delas são completamente apagadas do conhecimento geral porque adoptamos uma linguagem universal: o inglês. Antes que pensem, não, não sou contra o inglês (apesar de a minha professora de inglês achar que eu odiava) e até gosto de falar inglês. Mas a magnitude que esta língua atingiu no mundo fez com que todas as outras ficassem nos seus países, a menos que as outras pessoas se interessem e investiguem. Os produtos que esses próprios países vendem não ajudam muito: tudo o que é feito na língua do país na sua maioria é para consumo interno. Qual foi a última música que vocês viram ter um sucesso enorme que não era em inglês (ou pelo menos tinha uma versão em inglês)? Qual foi o último filme que chegou ao estrelato e os actores falavam na língua-mãe? É triste, mas a é verdade, se se quer vender, é o inglês que vende.


A minha pergunta é: porquê? O inglês está longe de ser das línguas mais bonitas do mundo e a sua complexidade é mínima - se assim não fosse não seria tão fácil de aprender. E claro, vão-me dizer que o inglês vende porque é a língua mais falada do mundo. Da mesma maneira que o espanhol também vende, porque é a segunda língua mais falada do mundo. Claro que em caso de filmes, isso seria facilmente contornado com umas legendas, mas vamos a um campo mais difícil de contornar: a música. 

Música não tem legendas, ouve-se e ou se sente ou não se sente. Claro que se a música não tem nada para sentir, milagres não se fazem, mas um dos propósitos da música é passar sentimentos. Então para que serve o inglês nesta história toda? É mesmo preciso que uma letra esteja em inglês para que se entenda o que ela quer dizer? É preciso entender a letra, palavra por palavra, para perceber o que a música nos quer dizer? Claro que não. Bons cantores não precisam de letras em inglês. Bons instrumentais não precisam de letras em inglês. E boas músicas dispensam muito bem as letras em inglês. Se um cantor consegue encarnar perfeitamente o que está a cantar, se ele sente o que canta, é óbvio que eu também vou sentir. Por algum motivo há imensos artistas que cantam muito melhor na sua língua-mãe, porque sabem o que estão a cantar e sentem o que cantam. O produto final é muito melhor! E há idiomas tão lindos por esse mundo fora que só quem os conhece é que consegue falar sobre eles - e eu não conheço nem um centésimo deles e já me dou ao luxo de falar assim!

Como amante de música e pessoa que ouve música com letras em todas as línguas e mais algumas, e que gosta de investigar este universo, quero muito partilhar convosco este mundo em que a música não é só poliglota, mas também é universal. Porque era assim que ela devia ser sempre, sabem? A música é uma língua que todos entendem, vinda de que país for. Por isso, embarquem comigo nesta aventura e vamos viajar por vários países através da sua música e do seu idioma! Tenho a certeza que vão encontrar imensos cantores para adorar ;)

"Ti nascondi dentro un mare immenso
senti ancora musica"
("Estás escondido dentro de um mar imenso, ainda consegues ouvir a música?")

Já anteriormente falei sobre o Eurovision Song Contest (podem ler aqui) e agora é hora de falar sobre a edição que vai decorrer este ano. Serão 40 países a competirem em Viena, na Áustria, e falta menos de um mês para o início do festival. As casas de apostas já estão loucas, os fãs igualmente, os tops surgem por todos os lados. Vários são apontados como favoritos e é deles que vou falar já de seguida, sendo sobretudo uma lista pessoal.

No geral, este é um ano com músicas muito equilibradas. Algumas destacam-se, mas praticamente todas acabam por morrer no embalo das baladas. Praticamente TUDO baladas. Não me lembro de ver um ano com tantas músicas calmas. Para além disso, nota-se que as músicas deste ano são muito mais comerciais. Não é mau, claro que não, mas na maioria dos casos isso significa perder identidade cultural. E sim, sou dessas fãs antiquadas que ainda acha que este é um festival cultural. Condenem-me.

De entre 40 músicas, estarão presentes 7 línguas, para além do inglês: português, espanhol, francês, italiano, montenegrino, finlandês e romeno. O pior rating dos últimos anos em relação a línguas. Três países enviarão músicas étnicas: Israel, Sérvia e Montenegro. Uma salva de palmas para eles.

Agora, as músicas!

O ataque ao 1º lugar!


Itália
Il Volo - "Grande Amore"


Ainda o Festival de Sanremo (final nacional italiana) não tinha terminado e os Il Volo já eram favoritos à vitória do ESC. Na verdade, são favoritos com razão e se fossem só os fãs a decidir, eles provavelmente ganhariam. Num género ópera-pop diferente de todos os outros a concurso, é uma balada fortíssima que ainda por cima nos traz a bela língua italiana. E o que dizer das vozes? Absolutamente perfeitas. Os Il Volo ganharam a votação das organizações de fãs e com certeza não há muita coisa que esteja entre eles e a vitória.

A Itália estreou-se no concurso em 1956 e venceu duas vezes. Esteve ausente por vários anos por amuo (sim, foi mesmo por amuo) e desde que regressou em 2011 só ficou uma vez fora do top10.


Suécia
Måns Zelmerlöw - "Heroes"


E quando é que a Suécia não foi favorita? Eles podiam enviar um cão para cima do palco a ladrar e mesmo assim seriam favoritos, só porque é a Suécia. Eles são o supra-sumo do concurso, os que podem, mandam e conseguem sempre bons resultados. Desta vez participam com um plágio de uma música do David Guetta que apesar de bem cantado não é surpreendente, é apenas do tipo que se ouve só porque soa bem. De qualquer das formas, um dos primeiros lugares é para a Suécia.

A Suécia estreou-se no concurso em 1958 e já venceu cinco vezes, a mais recente em 2012. Desde que existe o sistema de semifinais falhou a final apenas uma vez e nesse ano a cantora recebeu ameaças durante meses por ter falhado a qualificação.


Espanha
Edurne - "Amanecer"


A Espanha tem sido um país bastante injustiçado no concurso, já tendo aparecido no topo dos tops em vários anos e sem passar do 10º lugar. Este ano o país participa com um instrumental poderoso, uma voz igualmente poderosa e uma letra fraca que ninguém vai entender porque está em espanhol. Sinceramente, não acredito na vitória espanhola, mas a música merece no mínimo um top5.

A Espanha estreou-se no concurso em 1961 e venceu duas vezes. O país não costuma ser muito equilibrado em termos de resultados, estando muitas vezes no fundo da tabela.


Azerbaijão
Elnur Huseynov - "Hour of the Wolf"


Estou completamente apaixonada por esta música e quero muito que ganhe! O instrumental é lindo, a voz do Elnur é divinal e aquela letra, POR AMOR DE DEUS AQUELA LETRA! Uma letra sobre tolerância perfeitamente escondida atrás de mil metáforas, numa complexidade linda de se desvendar. Isto é material vitorioso e não me admiraria nada se ganhasse.

O Azerbaijão estreou-se no concurso em 2008 (precisamente com Elnur Huseynov, que ficou em 8º lugar) e venceu uma vez, em 2011. Desde que a sua entrada no concurso ficou apenas uma vez fora do top10.


Austrália
Guy Sebastian - "Tonight Again"


Já muita história rolou acerca da participação da Austrália e um dos principais pontos a reter é: a Austrália só poderá voltar a participar se vencer o concurso este ano. Isto para mim quer dizer que eles vão ganhar (sim, muita coisa neste concurso é feita nas costas dos fãs). Mas a verdade é que eles merecem! A música é super moderna e absolutamente viciante. Guy Sebastian tem um timbre óptimo  e esta música é das melhores. Se vencerem, será justo.

Os que podem mudar as contas


Geórgia
Nina Sublatti - "Warrior"


A Geórgia está longe de ser um dos países queridos do festival, mas este ano com certeza destaca-se, nem que seja porque vai ser representada pela filha do diabo. Toda a música é muito rude, desde instrumental a letra (que parece quase cuspida) até mesmo à voz. O conjunto dá algo ultra poderoso e é óbvio que a música está pronta para entrar na guerra pelos lugares cimeiros. Será provavelmente o melhor lugar de sempre da Geórgia.

A Geórgia estreou-se no festival em 2007 e nunca venceu o concurso, tendo sido o nono lugar o melhor lugar conseguido pelo país.


Estónia
Elina Born & Stig Rästa - "Goodbye to Yesterday"


O hype à volta desta música foi enorme desde início e eu não consegui encontrar-lhe o charme. Não é o meu tipo de música, mas sim, é uma boa música. E tem um instrumental que marca a diferença junto das outras. Adoro a voz da Elina e na verdade acho que eles fazem um bom par. Os fãs adoram, mas na realidade não acho que possa ganhar.

A Estónia estreou-se no festival em 1993 e venceu uma vez. A quantidade de vezes em que se qualificou para a final é equivalente às em que não se qualificou, portanto não é um país de grandes resultados.


Albânia
Elhaida Dani - "I'm Alive"


Esta não foi a música inicialmente escolhida pelos albaneses mas realmente eles mudaram para melhor. Adoro as sensações que este instrumental me transmite e a voz da Elhaida é simplesmente fantástica. A força que ela mostra mostra que realmente está viva e que vai lutar pela vitória. Tenho a certeza que irá conseguir um óptimo lugar.

A Albânia estreou-se no concurso em 2004 e o melhor lugar que conseguiu foi o quinto lugar, em 2012. Tal como os países anteriores, é bastante inconstante nos seus resultados.

Israel
Nadav Guedj - "Golden Boy"


É muito complicado prever seja o que for para esta música. A música é muito catchy e diferencia-se das outras por incitar a dançar, o que por si só é uma enorme vantagem. É um R&B misturado com sons étnicos e até tem dois refrões! Para mim, é uma verdadeira masterpiece, sou completamente viciada e nem ligo que a letra seja uma porcaria. Isto merece um óptimo lugar pela mestria de produzir música moderna sem perder a identidade cultural. Mas é Israel, e os prognósticos são sempre duvidosos para Israel.

Israel estreou-se no festival em 1973 e já venceu três vezes. Nos últimos anos tem sido um dos países mais injustiçados, não alcançando a final desde 2010.


Finlândia
Pertti Kurikan Nimipäivät - Aina mun pitää


Para que conste, eu acho esta música uma merda. E não, nem sequer vou amenizar o termo, é o que eu acho! Mas isso é porque eu sou uma cadela sem coração, coisa que a maioria das pessoas não é. A verdade é que esta música foi criada na totalidade por uma banda composta por portadores de autismo e síndrome de down. A ideia é mostrarem que as pessoas deficiente podem fazer o mesmo que todas as outras. Se a iniciativa é boa? Com certeza. Se a música é boa? Poupem-me. A única coisa que tem de bom é só ter um minuto e meio. Mas apesar de este ser um concurso de canções, muitos vão-se compadecer pelo esforço da banda e premiá-los apenas pelo esforço e porque são deficientes. E assim eles vão conseguir um bom resultado.

A Finlândia participa desde 1961 e ganhou apenas uma vez, exactamente com uma banda que marcava pela diferença (até foram acusados de satanismo). Os resultados não costumam ser brilhantes, mas a presença na final é uma constante.

Claro que isto são previsões e muita coisa pode mudar, inclusive com as apresentações em palco. Mas apostava um dedo mindinho em como o vencedor está nesta lista. Apostava o outro dedo mindinho em como pelo menos um destes países vai ser um flop - excepto para a Finlândia, que se ficar em último, é mais do que merecido.

Aproveitem para ver o meu top40:



E ouçam o recap com todas as músicas a concurso:


Podem ouvir as músicas da primeira semifinal aqui.
Podem ouvir as músicas da segunda semifinal aqui.
Podem ouvir as músicas já finalistas aqui.
Sufjan Stevens não é um artista novo ou estreante - seu primeiro disco, A Sun Came, saiu ainda lá em 2000, e desde então o músico já lançou sete álbuns de estúdio, além de outros trabalhos, entre EPs e outros projetos. Mas eu só parei para prestar atenção nele recentemente, quando recebi, lá na rádio onde trabalho, um release sobre seu último lançamento, Carrie & Lowell.

Sem querer ser mórbida, mas eu confesso que o que me despertou mesmo a curiosidade de ouvir o disco foi o fato de que ele parecia muito, muito triste. É sério. Fiquei intrigada pelo tema, pelos títulos das músicas, pelo tom meio confessional do trabalho. Acho que, desde que li Através do Espelho, do Jostein Gaarder, eu passei a associar coisas tristes com coisas bonitas: "Nós choramos quando alguma coisa é triste. E às vezes também derramamos uma lágrima quando alguma coisa é muito bela", define o autor (que é o mesmo de O Mundo de Sofia, aliás). "Talvez algo muito bonito também nos deixe tristes porque sabemos que não vai durar para sempre." Resumo da ópera: fui ouvir Sufjan Stevens. E adorei.




Mas comecemos pelo começo - porque pode até ser que, sem associar o nome à pessoa, você já conheça o Sufjan. Ele já teve músicas nas trilhas sonoras de seriados como Nip/Tuck e The O.C. (pois é, The O.C. faz tempo - eu disse que ele não é estreante), e também do filme Pequena Miss Sunshine - uma delas, Chicago, é talvez o seu maior sucesso até agora; e faz parte do álbum Illinois, que em 2005 chegou a aparecer nas listas de mais vendidos da Billboard.

  

O estilo mais folk, com direito a banjo e outros instrumentos menos convencionais, é marca registrada do músico - embora ele já tenha se aventurado por outros gêneros, como o eletrônico de Enjoy Your Rabbit. Multi-instrumentista, o norte-americano (sim, apesar do nome, ele nasceu em Detroit, e atualmente mora em Nova York. 'Sufjan' é um nome persa, pré-arábico, que significa algo como 'portador de uma espada'; e foi dado ao artista por causa de uma comunidade religiosa a que seus pais pertenciam na época de seu nascimento) domina violão, guitarra, piano, bateria, xilofone e muitos outros; e geralmente toca e grava todos os instrumentos de seus trabalhos, além das diversas faixas vocais. Em Carrie & Lowell, lançado no finalzinho de março, Sufjan voltou com tudo às raízes folk, em um disco que vem sendo considerado pela crítica um dos melhores de sua carreira. Mais intimista que seus trabalhos anteriores, Carrie & Lowell traz o músico acompanhado de piano e violão, com letras detalhistas e um cantar mais calmo, quase susurrado. Uma coisa quase meio Paul Simon, assim, sabe? De certa forma, há um retorno ao estilo do álbum Seven Swans, mas diferente – entre os dois lançamentos, há mais de uma década de experimentações e evolução musical.

O título do disco traz os nomes da mãe e do padrasto de Sufjan: Carrie era bipolar e esquizofrênica, sofria com o vício em drogas e morreu em 2012, vítima de um câncer no estômago – mas já havia abandonado o filho muito antes, quando ele tinha apenas um ano de idade, e novamente mais tarde, repetidas vezes. Em Should Have Known Better, Sufjan canta: "when I was three, three maybe four, she left us at that video store" – ou seja, "quando eu tinha três anos, talvez quatro, ela nos abandonou naquela loja de vídeos". Lowell Brans foi casado com Carrie durante cinco anos, e tem uma importância fundamental na vida do músico (apesar de ele ter passado a maior parte da infância vivendo com o pai, Rasjid, justamente por causa das idas e vindas de Carrie): atualmente, ele administra o selo de Sufjan, Asthmatic Kitty, e aparece muitas vezes no novo álbum – principalmente na faixa-título, em que o artista chama aqueles cinco anos convivendo com o padrasto como sua "estação da esperança". Outro personagem importante do disco é seu irmão Markuzi - hoje um maratonista nacionalmente reconhecido nos Estados Unidos -, e a filha dele, sobrinha de Sufjan, que parece fornecer o único momento de pura alegria deste registro: "My brother had a daughter/ The beauty that she brings, illumination", canta o autor – algo como "Meu irmão teve uma filha/ A beleza que ela traz é iluminação". Sufjan nunca hesitou em colocar temas extremamente pessoais em suas canções, mas aqui sua autobiografia é o centro absoluto das atenções, em letras que falam de infância, família, depressão, solidão, fé e renascimento.


  

Eu avisei que os temas são tristes. Mas a sonoridade, eu juro, não é tanto. Carrie & Lowell é sim um disco introspectivo, para se ouvir sozinho, em um dia calmo em casa ou uma viagem longa e solitária de carro - mas traz uma certa sensação de conforto, de familiaridade. Como o próprio Sufjan explica: "Com este álbum, eu precisava me tirar deste ambiente de faz-de-conta. É algo que foi necessário para mim, depois da morte da minha mãe: procurar uma sensação de paz, de serenidade, em vez de sofrer. Eu não estou realmente tentando inovar, ou dizer nada de novo, ou provar qualquer coisa. É quase como se não fosse arte. Este disco não é um projeto de arte – é a minha vida."

(Se é para começar, começa-se com a música que introduz qualquer evento eurovisivo!)

Um pouco de história

Itália, 1946. A Europa vivia o fim da Segunda Guerra Mundial e as pessoas tentavam recompôr-se depois de tudo o que tinham passado. Numa tentativa de animar as pessoas, um floricultor de Sanremo, pequena localidade de Itália, propôs um festival anual de canções. A ideia não foi aceita até 1951, quando foi finalmente concretizada, nascendo assim o Festival de Sanremo, um dos festivais mais importantes do mundo.

Inglaterra, 1950. Nasce a European Braodcasting Union (EBU), fundada por 23 organizações de radiodifusão da Europa e Norte de África. Hoje são 74 os membros activos desta organização, espalhados por 54 países da Europa, África do Norte e Médio Oriente, mais 44 membros associados em 25 países diferentes. A maioria dos membros são serviços públicos de rádio e televisão.

Suíça, 1956. Organizado pela EBU e inspirado no Festival de Sanremo, nasce o Eurovision Song Contest (ESC), um concurso de música que pretendia não só unir os países no pós-guerra como mostrar a diversidade cultural entre esses mesmos países. Foram sete os países que participaram na primeira edição do festival: França, Alemanha, Itália, Holanda, Luxemburgo, Bélgica e Suíça.


Os meus pais nasceram em 1962, quando o Eurovision já ia na sua 7ª edição. Este ano será a 60ª. É muito complicado falar sobre algo com tanta história, com tanta música e com tantas línguas. 52 países já participaram no concurso, sendo a mais recente aquisição a Austrália, que se irá estrear neste ano. Não se deixem enganar pelo nome do concurso, ele realmente não é exclusivo da Europa: a única condição para um país participar é que seja membro activo da EBU. No total, foram cantadas 56 línguas diferentes, sendo que até línguas inventadas já existiram. Mais de 1400 músicas já subiram ao palco eurovisivo e estima-se que em cada ano cerca de 180 milhões de pessoas vejam o espectáculo. 

Mas como é que isto funciona? Suponho que seja a pergunta que vos vai na mente. De um modo simples, é um concurso de música, em que cada país envia o seu representante, e no qual há uma votação final que sagra um país vencedor. O país vencedor recebe a honra de hospedar o evento no ano seguinte (por norma). Actualmente (porque as regras já mudaram muitas vezes), o concurso é dividido em duas semifinais e uma final. Dez concorrentes de cada semifinal passam à final, onde se juntam ao BIG5 (Itália, Espanha, Alemanha, Reino Unido e França - os maiores investidores do concurso) e o país que hospeda o festival. Na final, cada país concorrente nesse ano vota nas suas dez canções preferidas, numa votação conjunta de pública mais um júri. A votação é atribuída em pontos: de 1 a 8, 10 e 12, sendo que os 12 são atribuídos à música preferida. O país com mais pontos vence.

O primeiro ano que assisti ao festival foi em 2006. Foi traumatizante por causa disto: 


A sério, ainda hoje tenho medo do Mr. Lordi. E COMO PODIA EU LEVAR A SÉRIO UM CONCURSO EM QUE VENCE ESTA COISA? Não sei. Acho que deve ser porque o meu pai via. Aí é que reside a magia, sabem? O meu pai cresceu a ver o festival e eu cresci como ele. Todos os anos nos juntamos em frente à televisão para ver. Milhares de famílias pelo mundo inteiro fazem o mesmo. É simplesmente mágico.

Então comecei a ver. Agora vejo todos os anos, começo já em Janeiro a acompanhar finais nacionais e... ah, sim. Não expliquei, mas as músicas são escolhidas por um de dois métodos, normalmente: por final nacional, que é um concurso em que o público escolhe a música, ou por selecção interna, que é quando a organização faz a escolha.

Ora, e nestas 59 edições passadas, o que já foi visto? Muita coisa, realmente. Houve um ano com quatro vencedores, houve o hat-trick da Irlanda, que venceu três vezes seguidas, houve o hat-trick do Johnny Logan, que venceu nas três vezes que participou. Vimos nomes conhecidos mundialmente como os ABBA ou a Celine Dion a vencerem o festival, e a Lara Fabian a ficar em segundo. Os Cascada também lá deram a sua graça!

Vimos mulheres com barba

Vimos mulheres vestidas de homem

Vimos homens vestidos de mulher

Vimos homens vestidos de... qualquer coisa

Vimos... isto...

E isto...

Ok...
(isto era uma música sobre fazer manteiga e abanar o que a nossa mãe nos deu)

Mas calma, também vimos coisas excepcionais!
(Esta performance + eu = amor eterno)


Vimos o Jimmy Jump a invadir o palco e a arruinar ainda mais a participação da Espanha, vimos Dana Internacional a ser a primeira mulher trans a vencer a competição, vimos guerras de palavras em directo, vimos romances a nascerem. Vimos aberturas fantásticas, arenas de fazer cair o queixo, performances de apaixonar. Mas sobretudo vimos muito boa música (assim como também vimos muita música que valha-me Deus) e, mais que tudo, vimos muitas pessoas. Milhares de pessoas, de dezenas de países, que se juntam num recinto e levantam as suas bandeirinhas para apoiar o seu país. E não importa que país se apoie, naquele recinto são todos amigos.

No final das contas, vimos isto:

Uma Europa unida pelo poder da música, não importa as divergências políticas. Naquele palco somos um só e durante três noites esquecemos o resto e apenas celebramos a música. E no final, a música e a diversidade cultural são os grandes vencedores da noite.

We Write The Story
E pelo menos uma vez no ano tentamos escrever de uma boa maneira.

Este ano o Eurovision Song Contest realiza-se em Viena, na Áustria. As duas semifinais serão nos dias 19 e 21 de Maio, enquanto a grande final será no dia 23 de Maio. Quarenta serão os países que participarão este ano. O programa é transmitido mundialmente pelo stream do Eurovision mas pessoalmente aconselho os streams da RTP (canal português), BBC (canal inglês) ou da SVT (canal sueco).