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Nesta nova fase da História do Sexo, vamos falar sobre a virgindade. Como ela é vista e tratada ao longo da nossa história. Um longo caminho cheio imposições, quase majoritariamente entre as mulheres, que se tornaram até moeda de troca. Comecemos.


Antes de entrar na explicação de como a sociedade vê a virgindade, é preciso defini-la.  E sim, ela pode ser mais complexa do que imaginamos. Para muitos ela é simples: ela resume a relação heterossexual de penetração peniana numa vagina. Como é esta visão que foi considerada válida para a maioria das sociedades, é a que usaremos. Porém, devemos deixar claro que existem muitas outras interpretações e questões que devem ser levantadas: sexo oral, sexo anal, masturbação mútua ou qualquer outra forma de sexo sem penetração devem ser consideradas válidas? Existe diferença da perda da virgindade entre um casal hétero que faz sexo anal e um casal gay?  Como uma lésbica perde a virgindade? Existe a perda da virgindade num estupro? Deixo essas questões ao leitor, assim como a valorização da virgindade em si e sua importância - eu apenas demostrarei como ela era vista pelos outros na história da humanidade.

Essa valorização da virgindade surge junto com o conceito de monogamia, que alguns historiadores acreditam que começou no neolítico (a idade da pedra polida). E assim surgiu a ideia de que a mulher não devia trazer para a união do casal lembranças de outras relações sexuais, assim garantindo o monopólio sexual da vida da mulher a um único homem.   

No entanto, a associação entre o rompimento do hímen e a virgindade não estava totalmente relacionada, como veremos mais para frente na história: para muitos povos era necessário romper o hímen antes de ela praticar sexo. Isso se deve ao “horror ao sangue”, algo presente em muitas sociedades: o sangue representa o perigo, o mal, a morte. (voltaremos a este assunto quando um dia falarmos da menstruação) Por isso, o sangramento que ocorre quando o hímen é rompido não deve estar presente na primeira relação de um casal - assim, vários povos criaram costumes e tradições de romper a membrana antes do coito da virgem.

Entre os aborígenes australianos, mulheres idosas perfuram o hímen das virgens. Na tribo Tukanos, no noroeste da Amazônia, o ancião mais importante penetrava o dedo na virgem até deflorá-la. Na Malásia, esse era o papel dos pais; enquanto em algumas regiões da Índia era da própria noiva, usando um falo de madeira. Isso repete-se em várias comunidades ao longo da história e do mundo.
A virgindade torna também fundamental para realização do casamento, e podemos já ver entre as primeiras civilizações como sumérios, babilônios e assírios que a cerimônia é um contrato entre duas partes (geralmente o noivo homem e o pai da jovem noiva). E, como um acordo, pode ser rompido se um dos termos não for cumprido - e um deles era a virgindade da noiva.

Interessante que entre os egípcios isso não era um problema. Não existia o tabu do sexo antes do casamento. Apenas em períodos mais recentes do Egito Antigo aparece um “presente de virgem”, quando o marido dava bens materiais à sua noiva caso ela fosse virgem em sua primeira relação sexual - o que mais parece ser um “bônus” do que uma obrigatoriedade na relação.

Porém, esse valor da virgindade na Mesopotâmia será o padrão que veremos nos próximos capítulos. Então voltem no próximo capítulo, quando veremos sobre as virgens gregas e romanas, aqui na História do Sexo.

Referência para leituras:

O site "InfoEscola" é usado por muitos adolescentes para seus trabalhos escolares. Leiam o que eles escrevem sobre o assunto e depois comparem ao que é descrito aqui. - Virgindade
Quando estudamos Renascença na escola, acreditamos que a ciência vinha como inimiga da religião, como se tivesse o objetivo de negar o passado e construir um novo futuro. Usamos o exemplo do centro do Universo: como se a religião insistisse que o centro era a Terra e a ciência contradizendo com o Sol. Mas isso não é uma grande verdade em várias áreas na esfera da ciência, em muitas delas ela servia mais para comprovar aquilo que já era acreditado, e entre elas a sensualidade humana.


Por isso, não é espanto como cientistas começaram a criar argumentos para condenar a masturbação que a religião tanto já abominava. Usando o termo religioso, o Dr. Balthazar Bekker lança em 1716 o panfleto: "Onania, ou o hediondo pecado da auto-poluição e todas as suas assustadoras consequências, em ambos os sexos, considerado: Com aconselhamento espiritual e físico para aqueles que já feriram à si mesmos com essa prática abominável".

E além deste título pequeno, vinha uma lista bem abrangente dos males que poderiam causar àqueles que se masturbavam, como problemas estomacais - que podiam variar da perda de apetite ou fome voraz -, além de náuseas, vômitos, tosse, rouquidão, impotência, falta de libido, magreza, palidez, espinhas, perda de memória, ataques de raiva, epilepsia, febre, burrice e até suicídio. Ou seja, se você tivesse alguma destas coisas, obviamente era porque se masturbara.

Outros cientistas confirmaram isso anos depois, como o médico inglês Robert James no livro "A Medicinal Dictionary" de 1743; o suíço Samuel-Auguste Tissot no "L'Onanisme" de 1760; e o americano Benjamin Rush num capítulo de "Of the Morbid State of the Sexual Appetite", de 1812. Poderia ficar relatando livros e tratados que condenavam totalmente a masturbação, ou condenando quem fazia ou mostrando as "assustadoras consequências", por horas.  Até filósofos como Kant e Rousseau decorreram como o ato era prejudicial.

Não seria de se espantar que os governos, até então embasados com essas evidências científicas, tentassem proteger seus cidadãos. E uma forma era punir o ato para que ninguém fosse prejudicado. Por exemplo, no estado de Connecticut, nos EUA, durante o século XVII, era condenado à morte quem se masturbava. Na Inglaterra, as calças dos meninos eram costuradas de uma forma que eles não conseguissem tocar o pênis pelo bolso. Vários lugares proibiram meninas de andar de bicicleta ou a cavalo justamente porque induzia a masturbação.

O Dr John Harvey Kellogg, um americano e grande opositor da masturbação, defendia cirurgias para masturbadores, como circuncisão sem anestesia nos meninos, e aplicação de ácido no clitóris das meninas. Além disso, acreditava que uma alimentação mais leve, sem carne, poderia acalmar esses desejos nos jovens, por isso inventou o sucrilho de milho em 1906 (isso mesmo, a empresa do tigre Tony é deste cara).

Esse grande tabu obviamente chegou ao Brasil, tanto que é conhecido o relato do médico João da Matta Machado, em 1875, de que a masturbação devia ser combatida nos internatos de Minas Gerais, e um jeito eficiente era deixar sempre um aluno em vigília enquanto os outros dormiam. Caso ele pegasse alguém em flagrante, acordaria todos e daria um sermão pela prática imunda, para que depois o masturbador sofresse escárnio de seus colegas.

Muitos jovens e adultos de ambos os sexos foram levados para sanatórios, eletrocutados, mutilados, usaram cintas de castidades e outros acessórios incômodos, sofreram humilhações e foram punidos por serem pegos realizando o ato do prazer solitário. Felizmente, isso começaria a mudar no século XX.

Referência para leituras:
Vejam um exemplo destas escritas científicas sobre a masturbação, o "Le Livre Sans Titre" - Leia aqui.
No Brasil, muita gente não vive sem o famoso cafezinho - na hora de acordar, logo depois do almoço, no meio da tarde. Eu nunca gostei. Claro, gosto é gosto - mas café não me desce, a não ser acompanhado de muito leite (e um pouquinho de açúcar, vai). Minha escolha, em qualquer hora do dia ou da noite, sempre foi o chá - pelo qual eu sou apaixonada. <3 Adoro descobrir novos tipos, experimentar novos sabores. Encontrar uma nova loja de chás e acessórios, então, faz minha felicidade por semanas. Claro que eu comecei naquelas: tomando o "chá" de hortelã, de erva-doce ou de erva-cidreira que minha mãe colhia na hortinha de casa e preparava antes de me colocar para dormir. Mas com o tempo eu fui lendo, me informando, experimentando, descobrindo. E hoje não sou só uma adoradora do chá pelo seu sabor, mas também pela tradição. Pela sua história, pelo costume. E aprendi muita coisa interessante.


Para começar, sabia que o chá é a segunda bebida mais consumida do mundo? E só perde mesmo para a água - o café fica em terceiro lugar. Claro que, vivendo no Brasil, país onde o café é paixão e orgulho nacional, é difícil perceber isso. Mas é só lembrar que a China e a Índia, dois dos maiores e mais populosos países do mundo, são também lugares onde todo mundo toma chá - e aí essa informação faz muito mais sentido.

Em segundo lugar: chá é só aquele preparado através da infusão das folhas, flores e raízes da Camellia sinensis, a "planta do chá". Aqui no Brasil, e também em Portugal, estamos acostumados a usar a palavra "chá" como sinônimo de qualquer infusão de frutos, raízes, flores e folhas; principalmente de ervas, como os que eu citei ali em cima: hortelã, erva-doce, erva-cidreira, camomila, ou até maçã, canela, e tantas, tantas outras. Mas o certo mesmo é chamar tudo isso de infusão: chá mesmo, só de Camellia sinensis, uma planta de origem chinesa e indiana - parente da nossa camélia, aquela que dá flores. O que diferencia o chá preto do verde e do branco, por exemplo, não é a planta, mas o modo de preparação. Muitos chás, aliás, utilizam infusões na receita, para fazer novas combinações e criar novos sabores - e fica uma delícia. <3


Os métodos mais comuns de colheita e preparação do chá chegaram até nós através dos portugueses, que foram os primeiros europeus a ter contato com os japoneses, em 1543 - e, claro, foram os orientais que inventaram essa história (tem alguma coisa que eles não inventaram?). As lendas chinesas dizem que o primeiro imperador a beber chá viveu lá em 2737 a.C.; mas o que sabemos mesmo é que, no ano de 805, o Japão já cultivava a Camellia sinensis com o objetivo de produzir a bebida. Na Europa, o chá se tornou popular muito rápido, principalmente entre as classes mais ricas da França e dos Países Baixos - e, depois, na Inglaterra, onde, dizem, a princesa portuguesa Catarina de Bragança, que se casou com Carlos II da Inglaterra, introduziu o costume. A princesa gostava tanto de chás (mulher de bom gosto, essa) que promovia "tea parties", onde a bebida era consumida. Já a tradição do chá da tarde - o famoso "five o'clock tea" - foi criada pela sétima Duquesa de Bedford, no início do século XIX; e hoje em dia os ingleses usam a expressão para a refeição feita no final da tarde, mesmo se você não consumir, obrigatoriamente, chá. No Brasil, a bebida chegou em 1812, com o plantio das primeiras mudas de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E o chá em saquinhos, como estamos acostumados a comprar no supermercado, só surgiu em 1904, inventado pelos norte-americanos - embora os infusores sejam usados até hoje, como método favorito dos experts no assunto.

Mesmo que na Inglaterra e na maioria dos outros países ocidentais o chá tenha ganhado popularidade como "bebida social", por assim dizer, em seus países de origem, como China, Japão e Índia, ele é tradicionalmente consumido como uma bebida benéfica para a saúde - e até mesmo como algo sagrado, ritualístico. A famosa cerimônia do chá japonesa tem influências do taoísmo e do zen budismo: durante a cerimônia, que pode durar até quatro horas, o chá verde em pó (chamado de matcha) é preparado ritualisticamente e servido aos convidados. O praticante da cerimônia precisa ter um grande conhecimento das artes tradicionais que fazem parte do ritual, incluindo, claro, o cultivo e as variedades do chá - mas também etiqueta, cerâmica, uso de incensos, arranjo de flores, vestes tradicionais japonesas e até de caligrafia. Mesmo para participar como convidado é preciso conhecer os gestos e frases pré-definidos, a maneira de se comportar na sala de chá, e como se servir da bebida da maneira certa, para não fazer feio. Pois é - é um ritual, gente, não um five o'clock tea inglês.


Entre os benefícios do chá estão o fortalecimento do sistema imunológico, por exemplo, o fornecimento de componentes antioxidantes - que previnem o envelhecimento das células -, a melhora da digestão e o aumento da atividade metabólica, o que queima calorias e ajuda a emagrecer. Mas cuidado: o chá tem cafeína, alguns deles quase tanto quanto o café, e pode causar insônia dependendo da quantidade - ou do horário - em que for ingerido. Todos os tipos de chá possuem mais ou menos as mesmas substâncias, mas em concentrações diferentes - resultado dos diversos métodos de preparação -, então é bom pesquisar e procurar aquele mais adequado às suas necessidades. :)

Bom, meu plano inicial era escrever um texto sobre chá aqui no blog - mas aí eu comecei e percebi que, se eu for falar tudo o que é interessante falar, vou escrever um livro. Então, no próximo texto da série, eu falo sobre os tipos de chá - como cada um é preparado, os benefícios e características de cada um, e dicas de como deixar o seu mais gostoso. <3

Btw, esse texto foi escrito enquanto eu bebia um English Breakfast - que, apesar do nome, que nos lembra "café-da-manhã", é um dos meus favoritos para tomar depois do almoço: bem forte, ele é um blend de vários tipos de chá preto, e dá uma acordada daquelas - tipo café, mesmo. Como diz o nome, é um dos mais tradicionais entre os ingleses. ;)
Antes de entrar na época contemporânea, é importante falar sobre os conceitos da masturbação de acordo com as religiões ocidentais, já que elas são grandes definidoras da moral de todo o Ocidente.


Para começar, falaremos das religiões cristãs, já que todas bebem da mesma fonte, a Bíblia. A principal passagem que é usada como argumento contra a masturbação, é a história de Onã, presente no primeiro livro, a Gênesis. Vou dar um pequeno resumo:

Onã era filho de Judá, neto de Jacó. Seu irmão primogênito, Er, era mau e foi morto por Deus, mas era preciso seguir a importante descendência do patriarca, por isso realizaram um "casamento levirato", ou seja, casaram Onã com a cunhada e viúva de Er, Tamar. E funcionaria assim: caso Tamar engravidasse de Onã, seus filhos seriam, na real, descendentes de Er aos olhos de Deus, e receberiam a herança de Judá. Caso não tivesse, Onã que a receberia. A Gênesis 38:9 diz que, ganancioso, "Onã soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a Er", então Deus matou Onã também.

E esse versículo tornou-se o principal argumento para justificar o porque da masturbação ser errada, afinal, Deus mata quem "derrama o sêmen na terra".  Mesmo que, primeiro, Deus o tenha matado por ser ambicioso, e segundo, que a interpretação mais óbvia desta passagem refere-se ao coito interrompido, ou seja, Onã fez sexo com Tamar, mas gozou fora. Enfim, o desperdício de sêmen de qualquer forma era um pecado. Além disso, por causa desta história, é ainda muito usada a palavra "onanismo" para referir-se à masturbação masculina.


(Ah... caso queiram saber o que aconteceu com a decadência de Judá: ele mesmo teve filhos com sua nora, e Tamar teve os gêmeos Perez e Zerá.)

Não existe uma vertente da cristandade que vê de forma diferente. Católicos, ortodoxos, protestantes, luteranos, adventistas, testemunhas de Jeová... todos condenam a masturbação de forma igual.

Entre os Judeus segue a mesma ideia de Onã para justificar a proibição, a "extração do sêmen em vão", mas existem discussões que apoiam que é permitida a masturbação para recolher o sêmen a ser usado na inseminação artificial ou fertilização in vitro.

No Islamismo, de acordo com os xiitas (uma das divisões do Islã) é proibido e pronto. Entre os sunitas (outra divisão), varia de acordo com as sub-divisões e estudiosos. Pode ser haram (pecado) ou halai (permitido), mas apenas se estiver em duas situações: medo de cometer adultério ou não ter meios para casar. Uns até mesmo dizem que apenas é permitido em situações onde não aliviar vai gerar sofrimento, como ser um viajante, um prisioneiro ou um mendigo, por exemplo. Mas estes que veem uma certa abertura também são poucos, a maioria considera proibido mesmo, como os xiitas.

Nas três religiões, a masturbação feminina não é tão condenada quanto a masculina, pois para eles não é um pecado contra a vida, não há perda da "semente". No entanto, todas elas afirmam que é errado também, mas a justificativa envolve mais ter os "errados pensamentos impuros",  "manter a pureza de espírito", e outros argumentos que envolvem mais o estado puro da mulher, do que uma explicação específica como a masculina.

Com isso, à partir do século XVIII a ciência começou a tentar explicar biologicamente os males da masturbação para comungar com que a religião já dizia, e isso será o assunto do próximo post.

Referência para leitura:
Uma dica válida é sempre ler os livros religiosos: Bíblia, Torá, Alcorão, mesmo que você seja de outra religião ou ateu. Conhecer estes livros é conhecer a sociedade onde vivemos.


Uma forma de entender a sexualidade na Idade Média é através de livros penitenciais, escrito por religiosos católicos. Eram verdadeiros manuais que tentavam estabelecer uma regra fixa para cada tipo de pecado contado por um confessante. Um padre, ao ouvir uma confissão de um aldeão ou nobre, podia usar os livros como referencia e dar a penitencia mais adequada.
 
Um dos mais influentes no século XI foi o "Decretum" de Burchard de Worms. Nele já indica que praticar a masturbação era um pecado e precisava ser punido. Para tal ato, ele sugeria ficar 10 dias de jejum com apenas pão e água. Caso usasse uma tábua de madeira com um furo, aumentava mais dois dias de castigo. Para as mulheres isso era muito mais grave, e ficariam um ano tendo que jejuar todas as quartas, sextas e sábados, além do Natal, Páscoa e Pentecostes.


De qualquer forma, a masturbação era o ato menos pecaminoso numa escala: masturbar, fornicar, adultério, sodomia, bestialidade e incesto. Então o prazer solitário era bem menor nessa escala, do que se relacionar entre irmãos.


Lembrem-se, o ato era feito por todo mundo no começo da Idade Média, como nos dias de hoje, com influência romana era apenas um ato feio de se fazer, mas banal. No máximo você recebia uma bronca do padre local se confessasse à ele. E isso foi crescendo e condenado através dos séculos, como vimos no penitencial de Burchard.


Um século depois do "Decretum", o arcebispo Gui de Roye sugeriu que apenas os bispos podiam masturbar-se, mas isso não durou.


No século XV, Jean Gerson, teólogo da Universidade de Paris, escreveu um tratado de como ouvir a confissão de uma masturbação. Quais perguntas fazer e até dizer que todos faziam, e se o confessor negasse, devia falar como mentir à Deus era tão pecado quanto. Dizia que pais e mestres deviam sempre lembrar que masturbar-se levava-os à danação eterna, e sugeria alguns remédios para os jovens: banho frio, flagelação, sobriedade, preces e boas companhias.


O santo São Tomas de Aquino dizia que masturbar era um dos pecados mais terríveis que um homem podia fazer, pois ia contra o único proposito natural e divino do sexo, procriar-se.


Uma ilustração medieval mostrando uma forma interessante de mastubar-se
Mas por que os homens medievais ficaram tão preocupados com a masturbação? Um dos vários prováveis motivos é justamente isto, a procriação. Após um terço da população morrer pela Peste Negra, era preciso povoar novamente a Europa, e desperdiçar semem para eles era um grande problema.


Não é por acaso que muitos dos mitos que persistente até hoje sugiram nessa época. Se um menino masturbar-se, cresce pêlos, espinhas ou calos na mão. Enquanto as meninas provavelmente tinham sido possuídas pelo demônio ou enfeitiçada por uma bruxa.


E o que era um pecado, viraria um enorme tabu no começo da idade contemporânea.


Referência para leitura:


Um livro que resume bem a sexualidade na Idade Média é "Sexo, Desvio e Danação - As minorias na Idade Média" do Dr. Jeffrey Richards. Vale a leitura.


Começamos com um conto narrado por Diógenes de Sinope, filósofo grego do século V a.C., que conta que o inventor da masturbação foi o deus Hermes. O deus um dia encontrou seu filho desolado, pois este não conseguia o amor da ninfa Eco, então o pai divino ensinou ao filho como aliviar seu sofrimento sexual, usando a masturbação. Pan então ensinaria aos pastores isolados tal técnica.
Pan em seu momento íntimo

E é assim que os antigos gregos viam a masturbação, um substituto saudável e comum de quando eram impossibilitados de terem outras formas de prazer sexual, ou para evitar terem filhos ilegítimos. 

Acreditavam também que a frustração sexual podia destruir uma pessoa, por isso satisfazer a si mesmo era importante para a saúde mental. 

Existem poucos escritos que afirmam como era a masturbação feminina, porém existem relatos de uma palavra específica para isso: anaphlan (traduzido como fogo alto). Além disso, filósofos escreveram que o ato era para ser incentivados às mulheres antes do matrimônio.


Para o auxílio da prática, a cidade de Mileto ficou conhecida por fabricar os melhores ólisbos das cidades gregas, que eram pênis artificiais feitos de couro macio. Existem pinturas de mulheres usando os ólisbos sozinhas, em duplas, em grupo, algumas penetrando no ânus, ou usando até dois ao mesmo tempo em cada orifício. Também é de conhecimento que as hetairas, uma espécie de prostitutas de luxo, usavam em apresentações eróticas durante banquetes. No entanto, alguns relatos romanos sugerem que o ato de masturbação deve ser feito antes do ato sexual, para prolongá-lo.  
Apesar da crença geral, muito do moralismo cristão iniciou entre os romanos, então a masturbação no Império Romano já começa a ser vista como um tabu. Para uma sociedade que acreditava que cada romano era um futuro soldado, a masturbação podia diminuir a líbido sexual e, como consequência, a procriação. Outros textos diziam que era um ato que devia ser feito apenas com a mão esquerda, a amica manus ("a mão amiga"), pois a mão direita era dedicada a tarefas mais nobres. Isto é reafirmado num grafite num muro preservado em Pompeia, onde estava escrito "quando minhas preocupações oprimirem meu corpo, com a mão esquerda eu libero meus fluídos reprimidos".

Se os escritos do poeta Marco Valério Marcial do século I d.C., servirem como base para o que o povo romano achava da masturbação, o ato era considerado como uma forma inferior de libertar os desejos sexuais, algo feito por escravos que não tinham parceiros. Porém, ele mesmo num poema afirma que se masturbou ao pensar num escravo menino.

Algo de escravos, mas ao mesmo tempo, algo proibido para escravos. Principalmente aqueles que eram comprados para satisfazer as vontades sexuais de suas mestras, que eram esposas de generais que viviam longe, normalmente guerreando. Eles compravam jovens bem dotados e viris para elas, e embora não fosse algo extremamente público e legal, era comum. Para isso, precisavam estar sempre com pique sexual, e por isso eram proibidos de se masturbar. Alguns usavam cintos de metal, que impediam o pênis de ficar ereto, outros, se fossem pegos se masturbando, eram flagelados com uma vara no órgão sexual e tinham o pênis enfaixado com um tecido com ervas e pimenta. Caso insistissem, eram castrados e tinham as línguas arrancadas para não contarem os segredos que tinham entre a mestre e ele.

Cinto de castidade romano para escravos

Por fim, é importante dizer que a própria palavra masturbação vem do latim romano, embora não exista um consenso entre os linguistas - uns dizem que Mas é pênis (derivado de Male, Homem) e turbare é agitar. Outros falam que vem de uma variação de sturpare que é "cometer um erro sexual contra", neste caso, com mão, a Man.

E como dito, os estigmas que começaram com os romanos, só piorariam muito mais entre os cristãos, como veremos no próximo capítulo: a Idade Média.


Algumas referências para consulta:
  • Os livros "Sexuality in the Roman Empire" de Amy Richlin e o traduzido "Amor, Sexo & Casamento na Grécia Antiga" de Nikos A. Vrissimtzis.
  • Sempre vale ler todas as pichações escritas espalhadas por vários muros e paredes da cidade de Pompeia, que após sua destruição pelo vulcão Vesúvio, deixou para a posterioridade incontáveis materiais e fontes históricas. Vejam neste site: Pichações de Pompeia.
Decidi iniciar a minha contribuição com o blog contando um pouco a historia do sexo. Com isso definido, dividi temas na minha cabeça, localizados em períodos históricos. O primeiro ficou sendo a Masturbação, uma preliminar antes de irmos ao clímax.

Obviamente, antes preciso definir do que se trata masturbar, o dicionário diz: 
Ação de estimular manualmente os órgãos sexuais, normalmente, atingindo o orgasmo. 
Simples, não? Hum... não. O ato e a palavra são desconhecidos em algumas culturas.

Em um estudo realizado pelo casal de antropólogos, Barry e Bonnie Hewlett, da Washington State University, com o povo dos Bayaka da África Central, foi constatado que eles desconheciam o que era masturbar-se, e nem entenderam o porquê de alguém realizar tal ato. O mesmo vale para Robert Bailey da University of Illinois que, durante uma pesquisa sobre fertilidade entre os Lese no Congo, teve dificuldades em pedir aos homens que se masturbassem, para que o sêmen fosse colhido, e mesmo após uma longa explicação, ele ainda recebeu algumas amostras com secreção vaginal misturado.

Então, este é o primeiro passo para começarmos a nossa jornada, se algumas sociedades nem sabem do que se trata, outras verão e tratarão de formas diferentes, dando valores e significados completamente estranhos para nós.
Os registros mais antigos da masturbação são de escavações em Malta (hoje um pequeno país numa ilha do Mediterrâneo), lá foram encontradas estátuas em argilas representando um homem se masturbando, feitas há 5000 a.C., e uma outra de uma mulher de 4000 a.C.. Além disso, até dildos (objetos em formas de pênis que auxiliam na masturbação) foram encontrados e datados do período paleolítico. 

Se um pênis feito de rocha polida no tamanho natural era usado para a masturbação, é pura suposição, mas não deixa de ser curioso.


Falo duplo encontrado em Gorge d"Enfer, França. Acredita que tem 13 mil anos.
Para que será que servia?

Começamos agora nas civilizações e as coisas começam a mudar. Na Suméria (povo da região da Mesopotâmia), homens masturbavam-se para aumentar sua potência, e até usavam um óleo com ferro em pó para dar uma certa fricção. Além disso, de acordo a mitologia suméria, Enki, deus das águas e da sabedoria entre os sumérios, encheu os rios Eufrates e Tigre após masturbar-se e ejacular água doce.

A masturbação também está presente na mitologia egípcia. Atum, deus primordial, o original de tudo, não tinha par, por isso seus primeiros filhos nasceram após a ejaculação ao masturbar-se, e assim nasceu: Shu, deus do ar seco, calor, luz e o estado masculino; e Tefnut, a umidade, as nuvens e o estado feminino. Isto se transformou num ritual, então os Faraós masturbavam-se nas margens do rio Nilo, diante de um público, para representar como também eram seres divinos. Além disso, novamente é encontrado dildos e falos masculinos, que podem ter sido ou não usados por pessoas, tanto para masturbação, quando para ritos e outras finalidades religiosas.

Mas, apesar das histórias divinas e ritos religiosos, como isso era tratado pelo egípcio comum? Será que era algo bem visto? Aceito? Não temos as respostas para perguntas de cunho mais social, por causa das informações escassas. Porém, essa falta de fonte histórica mudaria com as outras culturas crescentes:  as da região da Grécia e Roma, mas isto é para o próximo capítulo.
Mulher sobre um estranho falo. 
Esta imagem é do Papiro de Turin (tem este nome pois está no museu italiano na comuna de Turin), e apesar de não saber por que foi feito, ele revela muito sobre a sexualidade egípcia. Mostrarei outros trechos em outros capítulos.  


Algumas referências para consulta: